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Museu Goeldi convida população a votar nos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas

Silvania Oro Eo’ Cabixi entrevista sua avó Maria Pin Wa Oro Win na aldeia São Luiz. Foto: Joshua Birchall (UNM)

Agência Museu Goeldi – A população do Pará e de todo país já pode votar, a partir desta segunda-feira (18) e até a próxima sexta-feira (22), nos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas, projeto coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e que concorre ao 13° Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social. A votação popular é a segunda das três etapas do processo a ser concluído no dia 29 de maio, quando serão conhecidos e condecorados até sete vencedores, durante cerimônia em Brasília (DF). Para votar, basta entrar na página oficial; ir à tela “Certificação de Novas Tecnologias Sociais”; clicar em “Ver Todos”; e votar em “Dicionário Multimídia de Língua Indígenas”.

Ferramenta digital para ser utilizada em ações de manutenção e revitalização de línguas em risco de extinção, os dicionários multimídia, realizados em parceria com as comunidades indígenas e em colaboração com o Departamento de Linguística da University of New Mexico, foram certificados pela fundação como tecnologia social. Isso significa ter sido reconhecido que a metodologia é reaplicável por outras comunidades; conta com a participação ativa dos grupos interessados; e representa efetivas soluções de transformação social.

Agora, é a vez da votação popular, cujos pontos terão o mesmo peso que as notas de cada membro da Comissão de Seleção das Vencedoras, compondo a nota final. Pesquisadora do Museu Goeldi e responsável pelo projeto, a linguista Ana Vilacy Galúcio explica a importância do engajamento da sociedade na votação. “Este é um momento em que cada cidadão, ao votar nos dicionários, pode contribuir com a valorização de povos historicamente vulnerabilizados. É compromisso coletivo da sociedade com os indígenas e com um futuro que respeita a diversidade de seu povo”, argumenta Vilacy.

Cada ganhador, entre os 40 finalistas, receberá 200 mil reais para investir no desenvolvimento e aplicação da tecnologia. “Se ganharmos, entre as prioridades para uso do recurso do prêmio estão eventos de divulgação e capacitação para uso dos dicionários multimídia já prontos nas comunidades participantes. Está também o desenvolvimento da geração de aplicativos para ampla disponibilização através das plataformas digitais. Além disso, estão a ampliação dos dicionários existentes e a realização de projetos pilotos em outras comunidades que têm demonstrado interesse na tecnologia”, antecipa a pesquisadora.

Leidiane (esq.), Silvana e Rosalina Macurap em oficina com Ana Vilacy Galúcio. Foto: Daniel Magno/MPEG

Tecnologia ativa memórias e sorrisos

Os dicionários incorporam recursos de áudio, vídeo e imagem, incluindo a pronúncia das palavras e ilustrações de seu uso em frases. Esses recursos permitem registrar e transmitir de forma mais fiel aspectos orais da língua, de modo que o dicionário possa funcionar como fonte de referência e, especialmente, como instrumento de manutenção, fortalecimento e revitalização linguística.

“É ruim a pessoa ver um filho de indígena não aprender a falar nem o nome de qualquer coisa. Graças a Deus, ´tá dando certo e estamos aqui pra buscar mais coisa, mostrar que a gente, indígena, tem que ter a nossa fala, a nossa cultura”, revela Rosalina Guaratira em tom sereno e decisivo. Moradora da aldeia Tsupypari, na Terra Indígena Rio Mequens (RO), ela contribuiu com a construção do dicionário Guaratira-Sakurabiat, a partir do que aprendeu desde criança com a mãe, Mercedes Guaratira, e a avó, Madalena.

Rosalina, de 59 anos, explica como se deu o processo de apagamento da sua língua materna. “Antes de eu nascer que parou a língua. Como os mais velhos tinham ainda [conhecimento da língua materna], eles conversavam escondido. E as crianças que foram nascendo, esses que já estão crescidos, têm filhos, têm deles que nenhum pai ensinou a língua, por causa que o pessoal [não indígena] era muito ruim, impedia, brigava. O nosso costume, a nossa comida mesmo, eles não deixavam nada”, diz, referindo-se a invasores de suas terras, que proibiam os indígenas de usarem sua língua materna.

A sobrinha Silvana Guaratira é professora na escola Aipere, localizada na Aldeia Baixa Verde, no município Alto Alegre dos Parecis (RO), onde os alunos são seus familiares, a exemplo da irmã Helena, de 10 anos. “As crianças estão se interessando. Num trabalho de casa que eu passo, quando não tem no dicionário, ela diz: ‘vou perguntar pro meu pai’. No outro dia, ela chega com a tarefa que eu mandei fazer e mostra a gravação dela”, conta, cheia de entusiasmo.

A plataforma já reúne sete dicionários bilíngues com o português, contemplando as línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além do dicionário de lugares sagrados dos Medzeniakonai. Outros quatro dicionários estão em fase de finalização, para as línguas Makurap, Djeoromitxi, Wayoro e Kuyubim.

A riqueza do trabalho conjunto

A Amazônia concentra o maior número de povos originários no país e abriga, atualmente, cerca de dois terços de um universo que varia entre 150 e 170 línguas indígenas ainda faladas no Brasil, considerando critérios linguísticos. Com permanentes pressões econômicas, ambientais e sociais, os povos indígenas sofrem com o risco de extinção de suas línguas e de todos os conhecimentos associados a elas. “São saberes que representam conhecimentos, observações e experiências sobre fauna, flora, serviços ecossistêmicos, cosmologias, ritos e práticas culturais”, ressalta Vilacy.

Vilacy mostra a indígenas como usar os dicionários por meio de tablet. Foto: Arquivo da pesquisadora

Os indígenas sabem muito bem o quanto perdem com o desaparecimento de sua língua e têm convocado pesquisadores a contribuírem para reverter este cenário. A elaboração da ferramenta é resultado, por um lado, da longa trajetória do Museu Goeldi, centro de pesquisa mais antigo da Amazônia, fundado em 1866, e que detém o único acervo permanente de línguas e culturas indígenas na Região Norte do Brasil – além deste, existe apenas mais um no país, localizado no Museu Nacional dos Povos Indígenas (RJ). Por outro lado, é fruto do esforço conjunto entre indígenas que constituem a comunidade de fala e de linguistas da instituição.

Curadora da Coleção Linguística do Museu Goeldi, Ana Vilacy lembra que seu primeiro trabalho como linguista, em 1994, foi na própria comunidade de Rosalina Guaratira. “Os finados Passacá, Samuel, Pedro, todos eles queriam contar as histórias. Sabiam que eles já estavam perdendo muita coisa. Os mais velhos, naquela época, me pediram duas coisas. Eles queriam que a gente gravasse as histórias antigas, porque as histórias antigas contavam de um mundo muito lá atrás. Fiz esse trabalho com eles, de gravar as histórias antigas, a gente fez um livro. E escrevi a língua com eles, a gente aprendeu como escrever; estudei os sons da língua para escrever”, descreve Vilacy, emocionada.

A votação popular nos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas pode definir o resultado da premiação. Além de votar, a população pode colaborar compartilhando o link, aumentando as chances da plataforma digital ser ainda mais reconhecida no Brasil e beneficiar outras comunidades indígenas.

Texto: Erika Morhy

Edição e revisão: Carla Serqueira

Serviço:

Votação popular no Dicionário Multimídia de Línguas Indígenas para o 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social.

Data: 18 a 22 de maio

Para votar: entre na página oficial; role a tela até “Certificação de Novas Tecnologias Sociais”; clique em “Ver Todos”; e vote em “Dicionário Multimídia de Língua Indígenas”.

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