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Programa inédito de intercâmbio leva doutorandos indígenas brasileiros para a França

Intercambistas com Ricardo Neiva Tavares, embaixador do Brasil na França

Em agosto de 2023, quatro doutorandos indígenas, de diferentes origens e formações, foram selecionados para a primeira edição da Bolsa de Mobilidade Guatá, promovida pelo governo francês em parceria com cinco universidades brasileiras.

Com um francês básico e o desejo de ampliar seus conhecimentos no ambiente acadêmico internacional, esses quatro pesquisadores partiram para Paris com o desafio de estabelecer pontes, reforçando alguns dos sentidos mais profundos de um intercâmbio: a troca cultural, o aprofundamento de suas pesquisas e a ampliação de seu repertório.

Alicia Cacau dos Santos

De etnia Kokama, povo da região do Alto Solimões, Alicia Cacau dos Santos mudou-se com a família para Manaus aos 18 anos, para estudar e melhorar sua realidade social. “Eu sempre fui indígena, em contexto urbano, apesar de ter transitado em áreas rural e ribeirinha”. Aluna do doutorado em doenças tropicais e infecciosas na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ela sempre quis estudar no exterior. “Tentei outros processos seletivos e não passei por conta do idioma, o que considero um requerimento altamente elitista nas seleções para o doutorado. Para muitos indígenas o português não é a primeira língua, portanto a exigência de uma terceira, que nem sempre tivemos a oportunidade de estudar, torna tudo mais difícil”, afirma.

Mestre em Promoção da Saúde pela Faculdade de Saúde Publica da UFMG, Adriana Korã, Pajé Karirí-Sapuyá do sertão baiano, entrou no Programa de Doutorado em Arqueologia e Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais pela ação afirmativa. “A realidade de nossa população no Brasil é muito diferente de outras comunidades. Nosso contexto é de ausência de oportunidades e de não acesso. Poucos alunos nossos chegam a pós-graduação. O programa Guatá oferece uma experiencia ímpar. Saber que a internacionalização do ensino superior também inclui os indígenas é muito importante”.

Adriana Korã

Vivências de exclusão e superação foram dois dos temas mais reforçados pelos quatro bolsistas ao longo de nossa conversa. “Sou uma pesquisadora, não sou apenas indígena. Posso e devo atuar em diversas áreas”, explica Alicia. “Por onde caminho constato que nós, indígenas, temos uma autoestima baixa, criada por toda a configuração que vivemos. Minha pauta é a valorização, temos que nos colocar no lugar de profissionais, sabemos o que estamos fazendo”.

Dar voz aos seus povos, questionar, firmar suas opiniões e compartilhar seus aprendizados, não só com colegas e professores da Universidade Paris 8, mas com outros jovens indígenas, foram outros pontos de destaque.

“Sempre tentei marcar minha presença como pessoa indígena e como profissional, falando dos mais diversos assuntos”, conta Mairu Kuady Karajá. “Posso contribuir para o meu país com pensamentos críticos, filosóficos, políticos e para a minha comunidade, mostrando a eles que é possível alcançar novos desafios. Estou aqui na França para conversar de igual para igual, falar sobre a nova leitura, a nova configuração de pessoas indígenas que está surgindo”.

Mairu Kuady Karajá

Originário da terra Krehawá (São Domingos), no Mato Grosso, Mairu é doutorando em Direito na UnB, onde fez seu mestrado na mesma área. “Meu povo é o Iny-Karajá. Meu avô foi cacique na minha comunidade por muitos anos e o primeiro a ensinar português. Desde pequeno fui incentivado por minha avó e minha mãe a estudar, mas foi só aos 16 anos, quando fui morar em um internato adventista, pude aprimorar meu português”.

“A mente colonizadora dos europeus é concreta e alimenta uma crença sobre ser melhor que os outros. A gente aqui é indígena, as pessoas querem saber como somos, o que comemos, o que pensamos. Mas eu também quero saber delas e faço perguntas, ocupando um lugar de igual. Meu aprendizado tem sido intenso, em todas as esferas. Já tive a oportunidade de apresentar minha pesquisa um par de vezes, mas nem por isso perdi minha essência ou identidade”.

“Aqui na França me deparei com a ausência do indígena, ainda mais que no Brasil, sou confundida como indiana. Mas acredito que independentemente do que nossos corpos e aparências refletem, trouxe comigo essa representatividade e informações sobre nossas origens”, reflete Adriana Korã, que está aproveitando a oportunidade para cursar disciplinas de seu interesse e de áreas afins. “Eu tenho as aulas gravadas, meus colegas me passam as anotações e com isso vou melhorando meu francês e aprendendo muito. Vou a eventos científicos, lançamento de livros, não perco nenhuma oportunidade”.

Autaki Waurá, doutorando da Unicamp e estudioso da arte cerâmica de seu povo Wauja, conta que quando chegou a Paris ficou muito encantado com a paisagem da cidade. No entanto, quando entrou em seu quarto, na Casa do Brasil, ficou preocupado. “Como vou me comunicar ou localizar aqui se não falo a língua deles?”

A pergunta deu espaço para um insight profundo. “Me lembrei dos pesquisadores e estudiosos que passaram por nosso povo e entendi que eles viveram a mesma coisa, porque não conheciam nosso idioma também. Essa memória me fez sentir um antropólogo de verdade, imerso em uma cultura desconhecida”.

Autaki Waurá é Professor da escola indígena da aldeia Ulupuwene, no Território Indígena do Batovi/Xingu, Mato Grosso, e coordena projetos de valorização patrimonial da cultura Wauja, no Museu Indígena Ulupuwene (MIU), criado em 2023. Como seu plano de pesquisa inclui a visita a acervos de museus onde existem coleções das cerâmicas do seu povo, ele está fazendo um levantamento das peças Wauja no Museu du Quai Branly, visando promover um conhecimento intercultural sobre os objetos colecionados.

Autaki Waura visitando o Museu du Quai Branly

Guatá, em Tupi-Guarani, significa caminhar e toda caminhada envolve obstáculos, surpresas e conquistas. As limitações sentidas por conta das dificuldades com o idioma não foram um impedimento. O choque cultural está sendo superado. Aos poucos, cada um desses intercambistas começa a aproveitar seu tempo no exterior com a intensidade que a experiência internacional normalmente proporciona.

Estudar fora exige um tempo de adaptação e flexibilidade: para permitir com que tudo aquilo que chega possa ser absorvido e processado. Curiosamente, é uma experiência que naturalmente provoca um reencontro com nossas raízes, que fortalece nossa identidade cultural e que nos reposiciona no mundo, especialmente durante um doutorado.

“Com certeza, a pessoa que chegou aqui não é mais a mesma, eu sinto que evolui muito, consegui participar de eventos internacionais em alguns países e apresentar meu trabalho”, conta Alicia. “Vou levar comigo essa visão crítica e a questão de valorizar nossas conquistas e capacidades. Nós estamos aqui para debater de igual para igual. Não somos mais o outro, somos pesquisadores também. Temos espaço e voz própria e queremos nos fazer ouvir no cenário internacional”.

A também antropóloga, Nadège Mézié, adida para a ciência e tecnologia no Consulado geral da França em São Paulo, participou da criação do programa Guatá. “Sabemos que a questão do idioma é uma dificuldade, mas não queríamos interromper esta oportunidade por causa disso. E o aprendizado, em qualquer intercâmbio, vai muito além das aulas. Eles estão aproveitando muito seu tempo na França, participando de congressos, apresentando suas pesquisas em seminários, conhecendo outros estudantes de vários países. Este primeiro grupo vai estimular outros estudantes indígenas a buscar os complementos necessários para estudar fora do país. E, na reformulação do programa, já estamos pensando em alternativas, junto com as universidades parceiras brasileiras (que agora são 11), para melhorar o preparo em francês deles aqui”.

Inclusão, diversidade de perfis, trocas acadêmicas e culturais e acesso à mobilidade internacional são os principais objetivos da bolsa Guatá, direcionada a estudantes indígenas brasileiros. A missão está sendo cumprida, as vozes estão sendo ouvidas.

“Esse intercâmbio é uma chance única de ampliar oportunidades profissionais, fortalecer a luta pela visibilidade dos povos tradicionais e contribuir com novas perspectivas em temáticas relacionadas às comunidades indígenas”, conclui com veemência Adriana Korã.

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