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Marujos Pataxó gravam pela primeira vez um álbum de samba indígena

Theo Bueno/Divulgação

Há um samba para cada povo, cada ouvido, cada gosto. O samba é universal e tem traços espalhados pelo Brasil inteiro. Os povos indígenas têm uma própria visão do samba. E ela foi registrada pela primeira vez no final de 2023. O disco A força dos encantados, do grupo Marujos Pataxó, mostra ao mundo pela primeira vez o samba de dentro das aldeias que esteve preservado por gerações.

Os Marujos Pataxó decidiram celebrar os próprios encantados em uma mistura de uma batida percussiva de samba que se mantém viva na Aldeia Mãe Barra Velha, no território Pataxó do Sul da Bahia. O samba que propõem transmite uma visão transcendental da própria música, no sentido de superar as circunstâncias e encontrar lugar no sagrado. A força dos encantados é uma mistura de história e da crença espiritual.

Ao Correio, os integrantes Monica Bello, Arypotxe Pataxó e Twry Pataxó falaram em nome dos Marujos Pataxó sobre a importância de registrar esta história que atravessa gerações.

Entrevista // Marujos Pataxó

Qual a importância de mostrar o samba indígena para um público mais amplo?

Durante muito tempo, os povos indígenas foram invisibilizados e as pessoas não reconhecem o tamanho da importância e da influência dos povos indígenas para o surgimento de quase tudo que consideramos brasileiro.

Está no nome das cidades, na música, na culinária, na medicina, e a nossa intenção é revelar um pouco disso tudo e dar a oportunidade das pessoas de fora das aldeias terem acesso à nossa música e à cultura, para que, assim, possamos divulgar além da música, nossa arte, nossa história e o nosso conhecimento. Estamos em um local muito importante para o Brasil, pois, além de habitarmos as praias onde os portugueses chegaram, e o Monte Pascoal fazer parte do nosso território; estamos na aldeia em que aconteceu o Massacre de 1951, no qual muitos dos nossos foram assassinados, e foi a Aldeia Mãe Barra Velha que deu origem a todas as outras Aldeias Pataxó. Mesmo estando entre duas vilas turísticas superfamosas (Caraíva e Corumbau), nossas mais de 400 famílias de artistas e artesãos têm muita dificuldade de espaços para apresentar sua arte e seu artesanato. Mesmo com toda essa rica história, arte e cultura, o tráfico, o agronegócio e a especulação imobiliária estão causando a morte de muitos indígenas. Nossa aldeia já foi alvo de muitos massacres e, até hoje, temos muitos indígenas sendo assassinados. Acreditamos que dando visibilidade para a nossa música, arte e cultura, mudaremos essa triste realidade que afronta o nosso povo.

Como foi o processo de fazer este álbum?

Primeiramente, tivemos o desafio de fazer uma gravação de um grupo de mais de 40 pessoas que trazem um estilo musical único que guarda muito sobre a história do Brasil.

O custo desse trabalho era um grande desafio para nós, mas graças ao projeto aprovado no edital Natura Musical, conseguimos o apoio necessário para gravar o primeiro álbum oficial dos Marujos Pataxó.

Queremos muito poder dar inspiração para outros artistas indígenas, órgãos e empresas apoiarem essas iniciativas, pois muitas culturas tradicionais não são devidamente registradas e compartilhadas por falta de apoio e oportunidades. Temos, no Brasil, muitos artistas indígenas talentosos e muitas pessoas praticam o preconceito por não conhecerem as verdadeiras riquezas escondidas nas aldeias que, de verdade, não estão abaixo do solo, mas acima, na sua arte e na sua cultura que não tem preço.

Como a história Pataxó está impressa na música que vocês lançaram?

Houve um tempo em que havia muito preconceito com forte censura e repressão às manifestações religiosas que não fossem para a igreja católica. Os hereges eram duramente castigados e repreendidos. Como única alternativa de dar continuidade às suas manifestações artísticas e culturais, foi preciso unir instrumentos tradicionais com os trazidos pelos jesuítas e adorar os santos da igreja católica com traços da música indígena. Nossos velhos passaram essa cultura para nós e faz parte da nossa história.

Quando aconteceu o terrível massacre de 1951 e dezenas de indígenas foram assassinados, nossa aldeia foi toda incendiada. Todas as casas foram queimadas, e a única coisa que não queimou foi a imagem e a bandeira de Nossa Senhora da Conceição, que é a nossa padroeira.

Quando iniciaram o processo de criação do Parque Nacional do Monte Pascoal, os índios foram proibidos de plantar, não podiam tirar nada na mata, nem fruta nem piaçava. Alguns guerreiros saíram a pé para tentar chegar em Brasília e lutar pelo direito de permanecer nesse território. Passaram frio, fome, trabalhavam em regimes análogos à escravidão em fazendas, mas cumpriram sua missão e voltaram vivos. Todos os dias, os que ficavam oravam muito e quando voltavam na aldeia se comemorava com samba.

Hoje em dia, já podemos cantar no ritmo do samba músicas em patxohã (nossa língua tradicional) e músicas tradicionais como a faixa principal do álbum A força dos encantados, que é uma mistura de músicas cantada nos rituais sagrados do povo pataxó. Acreditamos muito nos encantados por aqui. Eles nos protegem, protegem as florestas e estão conosco nos guiando e nos ajudando em todas as missões. Por isso, fizemos questão de homenageá-los no nosso álbum e trazer essa força para abençoar esse trabalho.

Um dos pontos do álbum é colocar luz nas contribuições indígenas invisibilizadas. Qual a importância desse trabalho?

Trazer visibilidade para a questão indígena dentro e fora do nosso país. Abrir caminho por meio da arte e cultura para gerar renda de forma ecológica e sustentável para nossas comunidades. Trazer também o reconhecimento da importância dos povos indígenas para a cultura brasileira. Dar voz, oportunidade, proteção e visibilidade para os povos originários.

Parte da sonoridade brasileira tem raízes indígenas. Por que é preciso entender as raízes da nossa música e respeitar este início?

O esquecimento dos povos indígenas e a invisibilidade são um dos principais motivos do preconceito contra esses povos no Brasil. Muita gente diz e acredita que não existe índio no Brasil. E isso ocorre por falta de conhecimento e de divulgação da sua cultura. A falta de oportunidade, de espaço e da devida valorização ocasiona no apagamento e no esquecimento. O que também desmotiva muitos povos indígenas a darem continuidade às suas tradições. É preciso incentivar, apoiar, dar voz e oportunidades para a arte e cultura indígena no nosso país. Todas as aldeias guardam riquezas culturais incomensuráveis, e enquanto suas terras são destruídas e devastadas pela ignorância, sua cultura vai morrendo junto.

A força indígena está presente na música brasileira, na língua portuguesa, no nome das cidades, nas comidas tradicionais, na medicina?

Qualquer pessoa que chega na casa de alguém precisa respeitar o dono da casa. Isso nunca aconteceu no Brasil. Cada vez mais nossos direitos são reduzidos e, até hoje, o pouco que sobrou para nós de nossos territórios não foi demarcado e homologado. Quando os portugueses chegaram aqui, essa terra era um paraíso. Mas a nossa maior riqueza era a sustentabilidade. Aqui, viviam centenas de povos, e não havia lixo, nossos rios, nossas terras eram cheios de vida, não existia poluição, tínhamos nossa cultura e religiosidade vivas e, até hoje, não entendemos porque não podemos ter o direito à terra e o preconceito praticado contra o nosso povo que tanto contribuiu para o nascimento do Brasil.

O que este álbum tem de diferente do que é ouvido comumente no Brasil?

É a força dos encantados. A força que nos mantém de pé mesmo diante de tantos desafios. A resistência, a união e a fé. O samba é muito sagrado para nós. Muitos elementos importantes estão sendo perdidos nas músicas que nascem, hoje, no Brasil. O romantismo está morrendo. Nossas músicas trazem o romantismo, falam da natureza e da vida no campo e da simplicidade.

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