Uma colaboração entre a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a aldeia Xukuru-Kariri Renascer Wakonã está viabilizando um programa de apoio à comunidade indígena, localizada no município de Presidente Olegário, em Minas Gerais.
Cerca de 4 mil pessoas da etnia Xukuru-Kariri vivem, atualmente, em três estados: Alagoas, Bahia e Minas Gerais. O grupo de Presidente Olegário é originário de Palmeira dos Índios (AL) e enfrentou sucessivos deslocamentos forçados. Além de séculos de violência, expropriação territorial e políticas de assimilação impostas aos povos indígenas, durante a colonização portuguesa e nas décadas seguintes, os conflitos internos e territoriais agravaram a situação.
Lideradas pela cacica Giselma Ferreira de Brito, 30 famílias originárias da caatinga têm, hoje, o desafio de construir suas vidas no cerrado mineiro, lidando com uma natureza diferente daquela de onde vieram e lutando por infraestrutura e cidadania. A liderança feminina é uma ruptura com os ciclos traumáticos pelos quais essas famílias passaram, refletida na forma como a cacica se organiza com seu povo.

Juntos, indígenas e professores, técnicos e estudantes de diferentes áreas estão elaborando os projetos que compõem o programa, em dias e noites de vivência coletiva na aldeia. A comitiva da UFU e do Ibama visitou a aldeia três vezes no último ano. A última viagem foi em julho, durante a 2ª Assembleia Geral das Mulheres Indígenas de Minas Gerais.
Nesses encontros, os pesquisadores participam de cerimônias de espiritualidade na mata, dormem nas salas de aula construídas em forma de oca e todos comem juntos no pátio da escola. Jovens e adultos da aldeia analisam os textos apresentados pela UFU e pelo Ibama, sugerindo alterações e acréscimos até deixar os projetos de acordo com a realidade da comunidade. Afinal, eles não são objetos de estudo, são coautores dos trabalhos.
Jornalista de ciência da UFU, cobri a visita de 24 a 27 de abril. A notícia se mostra para a gente nesses casos. Eu vi universidade e sociedade fazendo ciência juntos, desde o primeiro movimento de elaboração dos projetos.
De Wakonã ao renascimento

Durante a vivência, formaram-se várias rodas, em volta da fogueira ou das refeições, em que a cacica e sua família contavam histórias não lineares, fragmentos que saltavam em milhares de anos e quilômetros, rumo ao passado, ao nordeste e ao agora. A data mais antiga que apurei na tradição oral é 8 mil anos atrás, quando teria vivido o Cacique Wakonã, um ancestral encantado que comandava oito nações na Terra.
Segundo a história contada pela comunidade, os Wakonã seriam os habitantes originários da região de Palmeira dos Índios, até 200 anos atrás, quando teriam chegado outros dois povos, os Xukuru e os Kariri. A literatura histórica e antropológica descreve a formação do povo Xukuru-Kariri como resultado de processos de convivência, deslocamentos e miscigenação entre diferentes grupos indígenas.
O primeiro aldeamento formal contemporâneo foi criado entre 1962 e 1963, na Fazenda Canto, em Palmeira dos Índios, pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão governamental que funcionou no Brasil de 1910 a 1967. Mas uma família acabou expulsa de lá após um conflito interno, que resultou em uma morte.
A família expulsa refugiou-se na Bahia, inicialmente em Ibotirama e, depois, em Paulo Afonso, onde fundaram uma nova aldeia e permaneceram até o final da década de 1990. Após novos conflitos internos, que culminaram em outra morte, o grupo migrou para Minas Gerais.

O povo viveu em São Gotardo (MG) por três anos, sem um território próprio, aguardando providências da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Em 2001, eles conquistaram a aldeia Bela Vista, em Caldas (MG).
Entre o fim de 2017 e início de 2018, após atos de violência especialmente contra mulheres, uma dissidência liderada pela Cacica Giselma e sua irmã Raquel Ferreira de Brito deixou Caldas e deslocou-se para Presidente Olegário. A área de 1490 hectares foi cedida pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) à Funai.
Cerca de 30 famílias chegaram a uma terra sem infraestrutura, onde viveram inicialmente sob lonas. Desde então, eles criaram a aldeia Xukuru-Kariri Renascer Wakonã, construíram casas e sua própria escola, iniciaram projetos de sustentabilidade e proteção de nascentes. “A gente estava na fase da lei da sobrevivência, agora está na lei da vivência, do viver”, diz a cacica.
Com o apoio das instituições, os indígenas de Presidente Olegário trabalham de forma coletiva, buscando a sobrevivência material e o fortalecimento espiritual. Eles cultivam lavouras, produzem artesanatos, constroem moradias e atuam na escola da aldeia.
É um povo que também se dedica aos esportes, inclusive com tradição no futebol. O jogador José Sátiro Nascimento, conhecido como Índio, que atuou como lateral direito no Corinthians de 1998 a 2000, é alagoano Xukuru-Kariri. Na aldeia de Presidente Olegário, há campo de futebol, piscina olímpica em construção e planejamento para receber os Jogos Indígenas em novembro de 2026.
Além da UFU e do Ibama, o grupo tem atuado junto ao Ministério Público Federal (MPF), Justiça Federal, Centro de Justiça Restaurativa (Cejure), Funai, Universidade Federal de Viçosa (UFV) Campus Rio Paranaíba, Centro Universitário UniMG, Freeland e Secretaria de Saúde Indígena (Sesai). O trabalho que está sendo desenvolvido é chamado de programa, por ser um conjunto de projetos que envolvem várias áreas e pessoas.
O programa

A estruturação da aldeia Renascer Wakonã ainda demanda direitos fundamentais, como a homologação do território e construção de posto de saúde indígena. A energia elétrica, por exemplo, foi ligada somente no fim de junho deste ano.
O resgate da língua Xukuru-Kariri, tratada não como “morta”, mas como uma “língua adormecida”, é uma das frentes de trabalho. O professor Israel de Sá, do Instituto de Letras e Linguística (Ileel/UFU), coordena a produção do registro histórico e linguístico. “O que a gente tem proposto é sempre pensando na necessidade da comunidade, não da nossa pesquisa”, explica o docente.
O docente, em parceria com jornalistas da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), Marco Cavalcanti e eu, também trabalha na produção de um livro em que esse povo conta sua própria história.
A agroecologia e a sustentabilidade norteiam o projeto liderado pela professora Adriane de Andrade Silva, do Instituto de Ciências Agrárias (Iciag/UFU). O foco é na autossuficiência alimentar e na proteção do bioma Cerrado. Um exemplo prático é a colaboração com o raizeiro Mariozan de Freitas, que trabalha com os indígenas o reconhecimento de plantas medicinais da nossa região.
A professora e nutricionista Marina Rodrigues Barbosa, da Faculdade de Medicina (Famed/UFU), desenvolve um projeto para registrar a cultura alimentar da aldeia, especialmente os alimentos que curam e a memória afetiva que as receitas carregam, para garantir que esses saberes não se percam com a mudança de território.

Tudo isso se relaciona à saúde das pessoas da aldeia. O pesquisador Glênio Alves de Freitas, da Famed/UFU, atua na interseção entre a medicina biomédica e a tradicional. O trabalho contempla, por exemplo, que os profissionais de saúde que atendem a comunidade conheçam e respeitem suas práticas de cura. “Se eu fosse escrever um projeto no gabinete sem conhecer esse contexto, eu não iria reproduzir a realidade necessária”, diz Freitas.
A educação ambiental e a proteção territorial ficam sob responsabilidade, prioritariamente, do Ibama. Por meio do programa “É Tempo de Mudanças”, o instituto colabora com a proteção contra incêndios e a estruturação de uma brigada nativa. A parceria, coordenada pela servidora Adriana Melo Magalhães, inclui o apoio logístico para a demarcação e homologação da terra junto ao MPF.
O programa prevê ainda a disponibilização de galpão e maquinário para artesanato feito a partir de resíduos de madeira, intercâmbio multiétnico ecossocial, cozinha comunitária, trilhas dirigidas, recuperação de áreas degradadas, construção de centro de pesquisa, monitoramento da fauna, da flora e dos solos.
“Esse programa é a minha última cartada na esperança de tempos melhores. É como as flechas que o arqueiro lança: ele atira numa direção, mas não vê o alvo que vai alcançar do outro lado”, diz a cacica Giselma.
Os projetos estão em fase de formatação para serem submetidos a editais de financiamento, incluindo um da Justiça Federal e recursos do próprio Ibama. Indígenas, professores, técnicos e estudantes seguem fazendo, juntos, ciência de interesse público, em um ato de reparação histórica e garantia de cidadania para as futuras gerações. Já são 13 crianças nascidas na aldeia Xukuru-Kariri Renascer Wakonã.







