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Diploma amplia oportunidades, mas indígenas ainda enfrentam barreiras regionais para entrar no mercado de trabalho

Foto: Valentina Fraiz/Com montagem Marcelo Júnior

Formada em Secretariado Executivo Bilíngue, Daiane Silva, 25, indígena do povo Potiguara (PB), antes mesmo de entrar na universidade já se preocupava com as limitações do mercado de trabalho na região onde morava. O ecólogo Bruno Potiguara (PB), 34, também refletia sobre as oportunidades profissionais compatíveis com sua formação após a graduação — motivo que o levou a migrar do curso de Engenharia Ambiental para o de Ecologia.

A presença de estudantes indígenas no ensino superior brasileiro aumentou 374% entre 2011 e 2021, segundo levantamento do Instituto Semesp. Esse crescimento está associado à implementação de políticas públicas, como a Lei de Cotas, que favoreceram o acesso dos povos indígenas às universidades nas últimas décadas. Apesar desse avanço, muitos egressos ainda encontram barreiras para se inserir no mercado de trabalho formal.

+ 374%
Aumento na presença de estudantes indígenas no ensino superior brasileiro entre 2011 e 2021

Para a economista e pesquisadora especializada em desigualdades no mercado de trabalho, Janaína Feijó, fatores como a dinâmica econômica regional e o desalinhamento entre a formação acadêmica e a demanda do mercado de trabalho ajudam a explicar por que o aumento da qualificação nem sempre se traduz em inserção profissional.

“As pessoas costumam achar que o mercado de trabalho produz desigualdades, mas a verdade é que ele também é capaz de reproduzir desigualdades preexistentes. Regiões mais desenvolvidas, com maior concentração de empresas e um comércio mais dinâmico, tendem a oferecer mais oportunidades. Se considerarmos que muitas populações indígenas vivem em estados e regiões economicamente menos dinâmicos, isso pode afetar diretamente a sua inserção profissional.”

Janaína Feijó — Pesquisadora do FGV Ibre

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, os indígenas apresentam a menor taxa de participação no mercado de trabalho, a segunda maior taxa de desemprego e o maior índice de ocupações informais do país. As informações fazem parte de um levantamento realizado por Janaína Feijó, que atua no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

De acordo com a pesquisa, no terceiro trimestre de 2022, dos 42,9 mil indígenas desempregados no Brasil, cerca de 6,3% possuíam ensino superior completo. Janaína Feijó explica que, embora indígenas mais escolarizados apresentem menor probabilidade de desemprego, eles podem ser afetados pelas limitações econômicas das regiões onde vivem e tenham mais dificuldades do que pessoas de outras raças com o mesmo nível de formação.

Mismatch

A dificuldade de inserção profissional entre trabalhadores qualificados está relacionada a um fenômeno conhecido como mismatch que refere-se ao descompasso entre a formação e a realidade do mercado. Em outras palavras, ocorre quando a qualificação do profissional não encontra oportunidades compatíveis na região onde ele vive.

“O mismatch ocorre quando o indivíduo consegue acessar o ensino superior, supera todas as barreiras para se formar, mas a qualificação que adquiriu não encontra demanda suficiente na região onde vive. Assim, mesmo possuindo maior escolaridade, ele enfrenta esse desafio adicional. E o outro vértice seria a indução inconsciente por determinadas áreas sem mercado correspondente no local.”

Janaína Feijó — Economista

No caso dos povos indígenas, essa realidade também pode ser agravada por outros fatores. “O que observamos é que os indígenas chegam ao mercado de trabalho em uma condição mais desfavorável do que outros grupos, inclusive quando comparados a grupos também considerados minoritários, como a população preta. Por isso, acabam enfrentando mais desafios no mercado de trabalho”, afirma a pesquisadora.

Essa situação pode ser observada na trajetória da indígena Daiane Potiguara. Moradora de Marcação, no Litoral Norte da Paraíba, ela conta que a baixa oferta de oportunidades na área em que se formou a levou a não seguir a profissão. Atualmente, dedica-se à pós-graduação e ao trabalho como artista visual, atividade que, apesar da instabilidade financeira, tem garantido sua renda.

“Eu coloquei secretariado executivo de língua, porque na minha cabeça eu ia conseguir é um emprego mais fácil. Mas, numa região formada por municípios pequenos, se você não tem indicação de alguém, você não consegue um bom emprego, mesmo tendo um currículo excelente. Então, quando a gente pensa em conseguir um bom emprego, a gente tem que pensar em ir para fora”, destacou.

Para Anderson dos Santos, professor do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da UFPB, a empregabilidade dos egressos indígenas não pode ser analisada apenas a partir da obtenção do diploma, fatores sociais, econômicos e territoriais também influenciam diretamente as oportunidades profissionais encontradas após a graduação.

“Mesmo quando as instituições oferecem uma boa formação acadêmica, há desafios estruturais que afetam o mundo do trabalho como um todo, diante das contradições do que se pode compreender sobre empregabilidade nos padrões da nossa sociedade contemporânea. É fundamental que a sociedade e as instituições deem atenção à inserção dos povos indígenas no mercado de trabalho, pois esse investimento retorna em forma de qualificação profissional, diversidade e fortalecimento das políticas públicas”, afirma.

Anderson dos Santos — Professor UFPB

Inclusão e valorização dos saberes indígenas

Grupos minoritários enfrentam barreiras que vão além da qualificação profissional. De acordo com Nydia Holanda, coordenadora de Diversidade e Inclusão da Associação Brasileira de Recursos Humanos – seccional Paraíba (ABRH-PB), é necessário que as empresas trabalhem políticas de inclusão, e não apenas de diversidade, partindo do reconhecimento dos saberes indígenas como conhecimentos legítimos e valiosos para o ambiente corporativo.

“O pensamento de diversidade e inclusão da pessoa indígena só acontece, na maioria das vezes, em empresas que estão próximas ou desenvolvem projetos em territórios indígenas. É preciso respeitar sua identidade, seu território, sua cultura e o valor do seu conhecimento. Um processo de inclusão efetivo é aquele que valoriza e direciona competências, habilidades e saberes culturais para o desenvolvimento, gerando inovação, resultados e crescimento pessoal e profissional.”

Nydia Holanda — Coordenadora (ABRH-PB)

Diferente da secretária executiva bilíngue Daiane Silva, a mudança para o curso de Ecologia fez toda diferença para Bruno Potiguara aumentar as chances de atuar na sua área e garantir sua inserção no mercado de trabalho. Atualmente, ele trabalha no Ministério dos Povos Indígenas, mas afirma que a graduação é apenas uma etapa da formação profissional e que continua buscando novas qualificações.

“Fui fazer Ecologia por sentir que era um curso mais próximo da realidade que eu vivia. Hoje trabalho com gestão ambiental, territorial e promoção do bem viver, trazendo essa noção de implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. Isso traz uma sensação de contribuir não apenas com o meu povo, mas com todos os povos indígenas do Brasil. Em nenhum momento, porém, senti que apenas a graduação seria suficiente.”

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