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A história do internato que “destruiu indígenas por dentro” em MT

Fotografia do alojamento masculino das crianças internas em Utiariti. Centro de Pesquisa João Bournier

Proibidos de usar seus adornos, praticar seus costumes e até falar a própria língua, centenas de crianças indígenas de diferentes povos de Mato Grosso cresceram em um lugar criado para apagar sua identidade. Apresentado a doadores europeus como um internato destinado ao acolhimento de crianças órfãs, Utiariti foi, na verdade, um lugar onde elas eram “destruídas por dentro”.

Essa é a definição do professor, pesquisador e atual reitor do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), Julio César dos Santos. Em sua tese de doutorado, “A fronteira como lugar das diferenças: Rikbaktsa entre a Igreja e o Estado (1930-1985)”, ele reconstruiu a história do Internato Utiariti, um dos capítulos menos conhecidos da ocupação do noroeste mato-grossense.

“Eles apanhavam com um chicote feito de correia de máquina, com bolinhas de ferro amarradas na ponta. Era algo terrível”

A pesquisa reúne documentos do acervo da Prelazia de Diamantino, formado por relatórios produzidos pela Missão Jesuíta — atualmente preservados pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) —, além de depoimentos de indígenas que viveram no internato e carregam, até hoje, as marcas daquela experiência.

Ao longo da pesquisa, Julio entrevistou 13 indígenas Rikbaktsa que passaram por Utiariti. Outros, embora apareçam nos registros históricos encontrados por ele, recusaram-se a admitir que um dia viveram no internato.

“Era tanta vergonha, tanta dor, tanta violência que eles carregavam, que queriam apagar aquilo da memória”, afirmou.

Utiariti, nome de origem Paresí, identifica uma imponente cachoeira formada pelo rio Papagaio. Foi ali, em um antigo posto telegráfico implantado pela Comissão Rondon, em 1909, na divisa entre os territórios Nambiquara e Paresí, que a missão jesuíta instalou, entre 1944 e 1945, o internato indígena.

A localização era considerada estratégica. Além de aproveitar a estrutura das antigas linhas telegráficas construídas por Marechal Rondon, o local servia como ponto de apoio para as expedições missionárias aos territórios dos Rikbaktsa, Nambiquara, Paresí e outros povos indígenas da região.

A transferência para Utiariti também foi influenciada pelas dificuldades enfrentadas na missão anterior, em Santa Terezinha do Mangabal, onde um surto de febre amarela matou grande parte dos indígenas internados.

Segundo Julio, a atuação da Igreja estava diretamente ligada ao projeto de ocupação do norte de Mato Grosso, então majoritariamente habitado por povos indígenas.

Erdcheinungosort Innsbruk; foto publicada em 28 de abril de 1965. Centro de Pesquisa João Bournier

“A atuação da Igreja estava muito associada aos objetivos políticos de expansão do território brasileiro”, afirmou o pesquisador.

A imagem vendida ao mundo

Não é possível saber quantas crianças passaram por Utiariti ao longo dos quase 25 anos de funcionamento do internato. Os documentos encontrados por Julio trazem apenas recortes de determinados períodos.

Entre 1959 e 1960, por exemplo, havia ao menos 188 crianças indígenas vivendo no local, das quais 115 eram meninas. Mais da metade pertencia ao povo Rikbaktsa.

Também havia crianças Paresí, Caiabi, Iranches, Nambiquara e Cinta Larga, etnias que, até então, mantinham relações marcadas por rivalidades históricas.

Um dado que chamou a atenção do pesquisador foi que, apesar da imagem construída em torno de Utiariti, apenas cerca de um terço dessas crianças era, de fato, órfã. A maioria tinha pai, mãe ou outros familiares e havia sido levada das aldeias pelos missionários.

“Ter a língua arrancada, abrir mão daquilo que você é por dentro, era muito mais doloroso para esses indígenas, inclusive, do que os castigos físicos”

Mesmo assim, na Europa, Utiariti era divulgado como um internato destinado ao acolhimento de crianças indígenas órfãs. A estratégia ajudou a arrecadar recursos junto a empresas, fiéis e doadores particulares, que acreditavam financiar uma obra humanitária.

Entre os documentos analisados por Julio está uma reportagem publicada em um jornal alemão na década de 1960. A matéria apresentava o trabalho desenvolvido em Utiariti, solicitava doações para ajudar a “civilizar” crianças indígenas órfãs e era ilustrada por uma fotografia de dez meninos deitados em redes no alojamento masculino.

“Os jesuítas anunciavam como uma missão religiosa, uma missão de caridade, uma missão de catequização. Na Europa existia todo um programa de divulgação e propaganda da missão jesuíta para arrecadação de doações de empresas, de fiéis e de pessoas físicas para a missão em Mato Grosso”, explicou o pesquisador.

Ao longo dos anos, além das doações recebidas, Utiariti também se mantinha com a venda de castanhas colhidas pelos próprios internos, da borracha extraída na região e da realização de rifas, entre outras atividades.

Longe de casa

O principal responsável por convencer os pais a deixar os filhos em Utiariti era o padre e antropólogo austríaco João Evangelista Dornstauder. Ele dedicou 44 anos da vida sacerdotal às populações indígenas e ganhou reconhecimento internacional pelo trabalho de contato e “pacificação” do povo Rikbaktsa.

O religioso passava longos períodos nas aldeias, aprendia a língua dos povos, distribuía presentes e estabelecia relações de confiança com as comunidades. “Até hoje ele é idolatrado pelos indígenas, principalmente pelos Rikbaktsa”, contou Julio.

Durante esse processo começava o trabalho de convencimento das famílias para que permitissem que os filhos estudassem no internato. Nem todos, porém, conseguiam conviver com a distância. Documentos produzidos pelos missionários registram que, com frequência, pais percorriam centenas de quilômetros pelos rios para buscar os filhos de volta.

“Os próprios missionários reclamam que os pais apareciam em Utiariti para buscar seus filhos porque não aguentavam a saudade. Era muito frequente. Eles reclamavam nos documentos do apego dos pais, o que ‘atrapalhava’ o trabalho da missão”, contou.

Em alguns casos, as famílias conseguiam levar as crianças de volta para as aldeias.

Em outros, acabavam novamente convencidas a deixá-las no internato.

Centro de Pesquisa João Bournier

Identidade forçada

O primeiro contato das crianças com Utiariti marcava também o início de um processo de apagamento da identidade indígena e de reconstrução forçada de uma nova forma de viver.

“Quando a criança chegava, todos os adornos da cultura dela — brincos, colares, pulseiras — eram retirados. Não podiam mais fazer pinturas e a alimentação mudava completamente. Era um processo de descaracterização daquela cultura, de mudar os princípios, os hábitos e os valores”, explicou.

“O objetivo era dizer o seguinte: agora você não é mais ‘índio’. Você vai ser um trabalhador, uma pessoa da sociedade não indígena”, completou.

Nos documentos analisados pelo pesquisador, os próprios missionários afirmavam buscar transformar o que chamavam de “selvagens” em “colonos trabalhadores”, preparados para integrar o processo de ocupação econômica da região, impulsionado pela abertura de estradas, pela chegada das fazendas e pela expansão agrícola.

Disciplina, castigo e medo

Utiariti funcionava como uma espécie de escola-fazenda. Além da igreja e dos alojamentos, o complexo contava com oficinas, onde as crianças aprendiam ofícios considerados úteis para a vida fora das aldeias, ao mesmo tempo em que trabalhavam na manutenção da própria estrutura.

As crianças menores permaneciam sob os cuidados das freiras. Depois dos sete anos, os meninos eram separados e passavam a viver sob a supervisão dos padres, entre eles o mestre Odílio — personagem lembrado até hoje com profundo ressentimento por muitos ex-internos em razão da brutalidade dos castigos que aplicava.

A rotina era rigidamente controlada: havia hora para acordar, rezar, estudar e trabalhar. A violência era utilizada como método disciplinar, e qualquer infração às regras era punida com severos castigos físicos.

Durante a pesquisa, Julio encontrou homens com mais de 60 anos que ainda carregavam no corpo as marcas daquele período.

“Eles apanhavam com um chicote feito de correia de máquina, com bolinhas de ferro amarradas na ponta. Eu vi as marcas dessas bolinhas nas costas de um indígena. Era algo terrível”, afirmou.

Um dos relatos que mais marcaram o pesquisador descreve um ritual de punição imposto aos meninos. Os padres colocavam várias crianças nuas em fila e, uma a uma, elas passavam recebendo golpes de chicote de correias.

“Um dia, um dos meninos criou coragem e perguntou ao padre Odílio: ‘Padre, por que nós estamos apanhando?’. E ele respondeu: ‘Para vocês não terem pensamentos homossexuais’. Até hoje eles odeiam o padre Odílio. Todos falam dele com muito rancor”, contou.

Para o pesquisador, no entanto, a maior violência imposta àquelas crianças foi a destruição da identidade étnico-cultural.

“Sem dúvida nenhuma. Ter a língua arrancada, as crenças destruídas e reconstruídas, a alimentação completamente transformada e viver sob severa vigilância e castigos, tendo que abrir mão daquilo que você é por dentro. Era muito mais doloroso para esses indígenas, inclusive, do que os castigos físicos”, afirmou.

Bastava conversar na língua materna para que os meninos fossem castigados. “O objetivo era matar a língua, porque a língua é o principal elo de identidade de um povo”, explicou o pesquisador.

“Foi um trauma imenso para eles. Foi um trauma ir para Utiariti, foi um trauma viver dessa forma, foi um trauma e uma violência contra a identidade étnica deles”

Nem mesmo os casamentos escapavam desse projeto de transformação. À medida que cresciam, muitos jovens eram incentivados pelos missionários a formar casais com indígenas de outras etnias. A intenção, segundo o pesquisador, era enfraquecer a continuidade cultural de cada povo.

“Quando você casa um indígena de uma etnia com outro de uma etnia diferente, os filhos deles não serão nem de uma nem de outra. Então você descaracteriza aquela cultura específica”, explicou.

O fim

No início da década de 1960, a própria Igreja Católica passou a rever os impactos causados pelo internato aos povos indígenas. As mudanças foram impulsionadas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, quando o Vaticano reconheceu que o modelo de catequização adotado em instituições como Utiariti causava danos às populações indígenas.

Poucos anos depois, a orientação mudou e o internato iniciou seu processo de desativação, encerrando oficialmente as atividades em 1969.

Mapa de viagem ao Baixo Arinos, elaborado pelo padre Evangelista João Dornstauder. Centro de Pesquisa João Bournier

Tamanha foi a descaracterização cultural imposta que muitos indígenas já não sabiam mais quem eram. Segundo Julio, parte deles simplesmente permaneceu no local, vivendo entre os antigos alojamentos.

“Se você chegasse lá em 1974, sem padre, sem ninguém, encontrava indígenas morando no internato da forma como podiam”, contou.

Utiariti havia acabado, mas o “estrago já estava feito”. Voltar para as aldeias não era uma escolha simples. Muitos chegaram ainda crianças, cresceram falando outra língua, seguindo outra religião e aprendendo uma forma diferente de viver.

“Não se enxergavam mais como indígenas. Isso gerou uma crise de identidade muito grande”, afirmou o pesquisador.

Entre todos os relatos reunidos durante a pesquisa, um nunca saiu da memória de Julio: o depoimento de Isidoro Reromutsá. Levado ainda criança para Utiariti, ele cresceu no internato e, quando retornou ao território Rikbaktsa, já não reconhecia aquele como o seu lugar.

“Branco eu não sou. ‘Índio’ eu também não sou. Eu não sabia mais o que eu era. Eu estava sendo educado para ser um trabalhador, meu sonho era ser advogado. De repente, eu tenho que voltar a viver como um ‘primitivo’ na minha aldeia”, relatou ao pesquisador.

Para Julio, esse depoimento sintetiza o legado deixado por Utiariti.

Mais de meio século depois, muitos daqueles meninos e meninas ainda carregam as consequências de terem sido proibidos de reconhecer a própria identidade.

“Foi um trauma imenso para eles. Foi um trauma ir para Utiariti, foi um trauma viver dessa forma, foi um trauma e uma violência contra a identidade étnica deles. E também foi um trauma voltar para as comunidades e conviver com isso até hoje”, afirmou.

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