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Indígena conselheira jovem da UNICEF relembra como tragédia a tornou uma líder de transformação socioambiental: ‘Somos o futuro’

Indígena conselheira jovem da UNICEF relembra como tragédia a tornou uma líder de transformação socioambiental — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/Instagram

Alice Xukuru ainda morava na casa da sua mãe, no bairro de Ibura, em Recife, em 2022, quando fortes chuvas assolaram o estado de Pernambuco, matando mais de 130 pessoas. A água seguiu seu rumo, mas imagens das barreiras caindo, os gritos desesperadores e o medo constante nunca saíram da cabeça da estudante, que viu seu destino marcado pelo episódio.

Ela, que é uma pessoa com deficiência, acabou impactada com a interrupção da sua fisioterapia devido a dificuldade de acesso causada pela tragédia e se viu sem poder andar, mas nunca imobilizada. Decidiu, por conta própria, reunir alguns colegas e ajudar cidadãos que ficaram em estado de vulnerabilidade devido as enchentes e deslizamentos. Assim, tornou-se uma liderança jovem e o projeto, fundado pela urgência, resultou em grandes frutos e transformações sociais, ecológicas e políticas para a comunidade marginalizada.

“Vimos muita gente morrendo com o deslizamento da barreira aqui no Ibura. A gente não dormia, porque chovia e caiam barreiras do nosso lado. Tinha crianças que estavam indo ajudar e acabaram soterradas. Foram heróis. Minha mãe dizia que eu tinha que ficar em casa para me proteger da chuva, mas disse que precisava ajudar o povo, tinha que fazer alguma coisa. Era a gente pela gente, ou veríamos mais tragédias”, conta, em conversa com Marie Claire.

“Eu era muito tímida, mas tomei a iniciativa de mobilizar e organizar grupos com os jovens da minha escola [para ajudar os vulneráveis]. Vimos a juventude unida em prol do bem, em prol de salvar a comunidade. Tinha meninas que acabaram de perder suas mães e estavam ali ajudando outras famílias. Estávamos transformando a nossa dor em algo muito bonito, ainda que muito trágico.”

Alice Xukuru criou coletivo com amigos durante tragédia de Recife e segue ajudando jovens vulneráveis até hoje — Foto: Arquivo pessoal

Alice explica que escolheu manter o coletivo funcionando mesmo após o fim da tragédia, por entender que as ações promovidas por ele eram uma forma de arte, luta e uma expressão da comunidade. “O nome que escolhemos foi Coletivo Arte na Favela, porque lá tem arte, cultura e jovens empenhados em ajudar o próximo. Só precisamos de uma oportunidade, as pessoas não olham por nós”, lamenta.

Coletivo Arte na Favela

Alice conta que o projeto atua em várias frentes envolvendo trabalhos que promovem uma transformação social, econômica e ambiental. “Nossa saúde mental nunca volta a ser a mesma [depois da tragédia], principalmente a dos jovens. Queríamos trazer um ânimo a mais para os estudantes, ajudá-los a se encontrar”, explica.

Como indígena, ela também diz ter um entendimento diferente a respeito da natureza, visto que sua cultura lhe ensinou a cultivar um respeito maior por esse universo. “Digo que a luta dos indígenas não salva apenas a população indígena, mas salva todos nós.”

Estudante relembra racismo por ser indígena e empoderamento a partir do resgate de sua ancestralidade — Foto: Arquivo pessoal

Pensando nisso, a estudante auxiliou na criação do Projeto Comunicação Ambiental, focado em soluções sustentáveis, tecnologia digital e tecnologia ancestral (que diz respeito a reutilização de materiais e preservação da natureza).

“Com o meu espelho, eles estão formando outros jovens líderes e repassando os seus conhecimentos para os amigos da escola. É isso que eu quero, temos que ter voz, tomarmos iniciativa, porque somos o futuro. Se a gente não conscientizar a juventude, não vamos ter um futuro sustentável”, avalia.

O projeto conseguiu financiamento por parte da prefeitura de Recife e reverberou bastante, ao ponto de ganhar espaço na COP-30.

“Se os jovens continuarem com o pensamento de apoiar grandes indústrias que só querem destruir o meio-ambiente, com essas compras exageradas sem necessidade de consumo, com esse descarte inapropriado e o desrespeito com a natureza, a gente não vai avançar.”

A trajetória na UNICEF

Por mais que seu chamado para liderar um movimento tenha acontecido em 2022, anos antes Alice Xukuru já estava encaminhada para se tornar um nome importante da UNICEF. Isso porque a organização faz ações sociais na escola dela desde quando tinha 13 anos, algo que lhe trouxe grandes aprendizados.

“Eles atuam muito com crianças indígenas que vivem em condições de vulnerabilidade social e entram muito em lugares marginalizados. A UNICEF foi muito importante para eu aprender e conhecer novas culturas. Não olharam para mim apenas enquanto uma menina indígena, mas sim uma menina indígena na cidade. Me colocaram em espaços de escuta e de debates que nunca imaginei estar e me deram uma voz, que eu nem sabia que tinha. Não fizeram o que fazem com pessoas indígenas com deficiência, que é nos calar”

“Isso fez crescer meu espírito de liderança e de ajudar o próximo. Anos atrás, vimos a necessidade de criar um conselho jovem. Lutamos muito, mas ano passado ele foi consolidado”, complementa ela, que hoje é conselheira jovem da UNICEF.

O futuro ancestral

Para Alice, as pessoas indígenas com deficiência são “os invisíveis dos invisíveis”. “Com isso, a gente acaba sofrendo muito”, reconhece ela, que também destaca os preconceitos que sofre por ter crescido em um contexto urbano.

“A gente vê o quanto a questão da saúde é complicada. Olham a gente como um corpo qualquer, não têm respeito pela nossa cultura e pelo nosso espiritual. A gente só quer ser visto, ajudado e ter oportunidades.”

Coletivo criado por jovem indígena de Recife ganhou espaço na COP-30 por ações sociais — Foto: Arquivo pessoal

Ela relata que a experiência com o ativismo e com a tragédia de Recife despertaram nela o desejo de ser terapeuta ocupacional. Para além disso, entende que suas raízes indígenas a tornam incapaz de temer qualquer grande luta. “Carrego a força dos meus antepassados comigo. A força encantada, ancestral, nos leva para onde devemos estar, no momento certo.”

“Talvez eu precisasse passar por aquela experiência em 2022 para ser quem sou e entender a importância de lutar. Nós, indígenas, nascemos com essa missão, não podemos abandoná-la e fechar os olhos para aquilo que fomos destinados. Se não fizermos nada, as nossas gerações futuras vão sofrer”, conclui.

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