Um estudo publicado na revista Saúde e Sociedade, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, conduzido no Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), mostra que 99,6% dos profissionais da linha materno-infantil já atenderam mulheres indígenas. Contudo, mais de 60% não souberam identificar as etnias presentes em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Em 2023, esses partos chegaram a representar 15% dos nascimentos na instituição. A pesquisa, veiculada em 2025, foi coordenada pela professora Verônica Gronau Luz, da Faculdade de Ciências da Saúde da UFGD, em parceria com a professora Catia Paranhos Martins, as enfermeiras Wanaline Fonseca e Fabiana Casagranda e os pesquisadores Raquel Scopel e Ricardo Fernandes.
Mesmo no Mato Grosso do Sul, estado com uma das maiores populações indígenas do País, apenas 16,5% dos profissionais que disseram conhecer as etnias locais citaram corretamente as três presentes em Dourados: Guarani, Kaiowá e Terena. Para Verônica, o desconhecimento começa na formação escolar. “Esse é o primeiro equívoco que nós temos, um conhecimento prévio que vem lá da escola, de que indígena é indígena, inclusive que eles deveriam estar no Norte. Então a gente já começa a construir, ainda que inconscientemente, uma leitura da população indígena muito equivocada, e eu diria que, inclusive, racista!” Segundo ela, saber a etnia ajuda a antecipar barreiras de comunicação. “Se eu sei a etnia que eu estou atendendo, eu já vou saber a chance da pessoa falar português bem ou não. Se eu estou lidando com um Kaiowá, a chance dele não me dar informações é maior, porque ele não queria estar ali, ele às vezes não fala português direito.”
O quadro identificado em Dourados tem correspondência em dados nacionais. O levantamento com base no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), publicado na Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil em 2025, identificou 19.854 partos ocorridos em aldeias indígenas, entre 2015 e 2023, concentrados em 97 municípios, mais de 95% deles na região Norte. Entre essas mães, 19,4% não fizeram nenhuma consulta de pré-natal, contra 2,8% das não indígenas, o equivalente a sete vezes mais chance de chegar ao parto sem acompanhamento. A prematuridade atingiu 19,3% dos partos em aldeia, quase o dobro dos 11,2% entre não indígenas, e o baixo peso ao nascer chegou a 14,1%, ante 7,8%.

Segundo Verônica, a etnia e a raça ou cor da paciente ainda não constam de forma sistemática nos prontuários. “A pessoa que está atendendo — pense em um estudante de medicina, de nutrição — não lê que aquela pessoa é indígena. Isso é ruim exatamente porque você não vai saber se a pessoa precisa de um atendimento diferenciado.” O levantamento do Sinasc identifica uma lacuna semelhante em escala nacional. Entre as indígenas que pariram em aldeia, o campo sobre início do pré-natal ficou sem preenchimento em 24,2% dos casos, quatro vezes mais do que entre mães não indígenas.
Os dados do Sinasc também detalham as desigualdades que cercam o acompanhamento da gestação. Entre as mães que tiveram filhos em aldeia, 46,8% nunca frequentaram a escola, ante 0,9% das não indígenas, e apenas 31,9% iniciaram o pré-natal no primeiro trimestre da gestação, contra 64,5% entre não indígenas. Só 9,3% chegaram a sete ou mais consultas, patamar considerado adequado, ante 54,2% das não indígenas.

No HU de Dourados, a pesquisa também identificou diferenças entre categorias profissionais. Médicos atribuíram nota mediana de 8 à discussão interdisciplinar de casos de pacientes indígenas, enquanto enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros profissionais registraram medianas entre 5 e 6,5. Para Verônica, “a formação médica é um pouco mais dura no sentido de ser muito pouco interdisciplinar. Quando eles discutem um caso, não chamam alguém da nutrição, da enfermagem, da fonoaudiologia. Essa discussão acontece apenas entre a categoria médica, diferentemente de outras áreas em que essa discussão de caso é mais interdisciplinar”.
Diferenças culturais
As diferenças culturais também aparecem na condução do parto em si. Segundo o estudo de Dourados, 37,4% dos profissionais não souberam identificar qual a posição mais comum adotada por mulheres indígenas ao dar à luz, e a pesquisa aponta a permanência de rotinas intervencionistas em hospitais de ensino. A dissertação de mestrado da pesquisadora kaiowá Irene Gomes, defendida em 2023 e citada no artigo, descreve o sentimento de solidão vivido por parturientes indígenas no hospital, em contraste com o parto na aldeia, tradicionalmente acompanhado por outras mulheres da família.
A falta de conhecimento sobre as formas de expressão das pacientes também alimenta interpretações equivocadas sobre a dor, segundo relata Verônica. “É muito comum a gente ouvir: ‘Ah, é indígena, vai parir rapidinho’; ‘Ai, é mulher indígena, não vai sentir dor’. São falas muito recorrentes. E não é que a mulher indígena sente menos dor, ela só não verbaliza; ela não pode verbalizar porque sabe que vai sofrer racismo.”
Verônica também lembra de práticas de treinamento de residentes que recaíam especialmente sobre mulheres indígenas, como a episiotomia, incisão no períneo para ampliar a abertura vaginal durante o parto. “Antes, a episiotomia era a prática dos residentes. ‘Ah, preciso treinar episiotomia, em quem vou treinar?’ Principalmente nas mulheres indígenas, porque elas não pedem, não falam, não gritam e muitas nem entendem a língua. Hoje em dia, com muita luta de outros profissionais e do Comitê de Saúde Indígena, a episiotomia praticamente não existe no HU.”
Para ela, a formação continuada das equipes é o caminho para mudar essas práticas. “A gente entende que a educação permanente é o que vai transformar e vai fazer com que esse profissional seja menos preconceituoso, menos racista. Veja que a mulher indígena ou o paciente indígena precisam de questões diferentes, diferenciadas de um paciente não indígena. Para isso a gente precisa de formação.”
Para mais informações: [email protected]






