Boa Vista (RR) – Imagens de animais amazônicos e gravações reais de seus batimentos cardíacos fazem parte de uma iniciativa voltada ao acolhimento de pacientes indígenas durante a internação no Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima (HU-UFRR), vinculado à HU Brasil.
Os recursos fazem parte do projeto “Saúde no ambiente hospitalar: Bem-estar dos povos originários com recursos audiovisuais dos animais da Amazônia”, desenvolvido no HU-UFRR por meio do Programa de Iniciação Tecnológica (PIT), com participação de estudantes da UFRR. As atividades com os pacientes começaram em novembro de 2025 e já alcançaram cerca de 200 pacientes atendidos no hospital.
A proposta surgiu a partir de uma experiência do grupo de pesquisa “Sons do Coração da Amazônia”, que trabalha com imagens da fauna e gravações dos batimentos cardíacos de diferentes animais. A percepção das dificuldades de interação de alguns pacientes indígenas durante a internação levou à adaptação desses recursos para o ambiente hospitalar.
Segundo Leandro Aguiar, estudante de Medicina Veterinária, a utilização desses elementos ajuda a estabelecer uma aproximação com os pacientes durante a internação. “A ideia era justamente criar essa aproximação, fazendo com que o paciente se sentisse mais acolhido e mais à vontade dentro do ambiente hospitalar. Nós levávamos sons e imagens que remetiam ao contexto do paciente e traziam traços da sua comunidade indígena”, explica.

Sons despertam curiosidade e lembranças
As atividades são realizadas pelo menos uma vez por semana nas enfermarias, respeitando a rotina assistencial e os horários de atendimento dos profissionais.
Na abordagem, são utilizadas fotografias plastificadas de animais amazônicos e uma pequena caixa de som. Primeiro, as imagens são apresentadas aos pacientes, que são convidados a reconhecer as espécies e a contar como as conhecem. Em seguida, são reproduzidas as gravações dos batimentos cardíacos de animais reais. Normalmente, duas ou três espécies são apresentadas em cada atividade, entre elas arara, peixe-boi, jiboia e jabuti.
Segundo Leandro, a dinâmica revelou a familiaridade de muitos pacientes com diferentes espécies da fauna. Alguns reconheciam os animais pelo convívio em suas comunidades, pela criação ou por outras experiências cotidianas. Em determinadas situações, as imagens e os sons também despertavam lembranças de casa.
“Muitos pacientes conseguiram reconhecer alguns animais, seja por fazerem parte da alimentação, pelo contato através da caça ou simplesmente pela convivência. Em alguns casos, pacientes que criavam ou já haviam criado algum dos animais chegavam até mesmo a se emocionar, porque aquilo fazia com que lembrassem da sua casa e do seu próprio animal”, relata Leandro.

Cuidado considera referências culturais
O hospital conta com a Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas (URHPI) para o atendimento a essa população. No ambiente hospitalar, diferenças culturais e linguísticas, além da distância do território indígena, estão entre as particularidades que atravessam a internação desses pacientes.
A gerente de Ensino e Pesquisa do HU-UFRR, Ana Iara Costa Ferreira, explica que essas particularidades precisam ser consideradas durante a assistência. “É importante que o cuidado considere essas particularidades e busque reduzir o estranhamento provocado pela hospitalização. Neste projeto, elementos do Bioma Amazônico são utilizados como estratégia de aproximação e acolhimento, valorizando essas referências durante a permanência no hospital”, afirma.
Para o coordenador do projeto, professor André Galvão, a proposta, desenvolvida no âmbito da pesquisa, demonstra como conhecimentos produzidos a partir da biodiversidade amazônica podem ganhar novas aplicações. “A Amazônia não é apenas o lugar onde esse projeto acontece; ela está no centro da proposta. Os registros da fauna produzidos a partir da pesquisa ganham uma nova aplicação quando chegam ao ambiente hospitalar e encontram pacientes que têm relação direta com esse território. É uma forma de conectar biodiversidade, tecnologia e saúde indígena a partir de uma realidade que é nossa”, destaca.
Sobre a HU Brasil
O Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima (HU-UFRR) integra a HU Brasil desde 2024. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.






