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Brumadinho: comunidade indígena às margens do rio atingido pela lama enfrenta mais um rompimento, o de rituais

Foto: Washington Alves/Reuters/ Arte: Bárbara Miranda/g1

O rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, gerou uma série de outras rupturas na comunidade indígena que vive às margens do Rio Paraopeba, atingido pela lama de rejeitos, na vizinha São Joaquim de Bicas. A tragédia rompeu os costumes e rituais dos povos Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe, a relação com a água e o vínculo entre eles.

Vindas de Santa Cruz Cabrália, no Sul da Bahia, 56 famílias viviam na aldeia Naô Xohã Paraopeba antes de janeiro de 2019. Com a contaminação do rio e os impactos que vieram depois, a comunidade se dividiu e, hoje, 15 famílias permanecem no local.

Parte está em um terreno cedido pela Vale para realocação provisória, outros, em uma área doada pela Associação Mineira de Cultura Nipo-Brasileira, e alguns se espalharam por Belo Horizonte e Região Metropolitana.

“Fomos nos separando, teve muita divisão. Depois do crime, a gente não tem mais essa liberdade de um ir na casa do outro, tomar café, de um conversar com o outro. […] Eu estou resistindo por causa da reparação, porque a Vale quer levar a gente para sítio, para hotel, mas eu não quero ir para hotel, eu sou índio de território. E, mesmo que esse território esteja morto, ele ainda precisa da gente”, disse o cacique Sucupira, da aldeia Naô Xohã Paraopeba.

Cacique Sucupira, da aldeia Naô Xohã Paraopeba, em São Joaquim de Bicas — Foto: Leonardo Milagres/g1

Txopai

Na vida anterior ao rompimento da barragem, os indígenas cultivavam, caçavam e pescavam na região. Eles também praticavam rituais, como o Awê, em que se reuniam para cantar e dançar. O rio era parte fundamental de tudo feito ali.

“O rio tem uma grande importância para nosso povo porque representa o Txopai. O Txopai é um deus que criou o Pataxó de um pingo d’água, então, não tem preço. Hoje, a gente vem aqui na beira do rio e vê um velório, um velório diante da nossa comunidade que não tem volta. Ele não vai recuperar nunca”, afirmou o cacique.

Rio Paraopeba, em São Joaquim de Bicas — Foto: Leonardo Milagres/g1

Água proibida

Desde 2019, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) recomenda a não utilização da água bruta do rio Paraopeba para qualquer fim, no trecho de Brumadinho até Pompéu, a aproximadamente 250 km de distância.

Segundo o órgão, nos períodos chuvosos, aumentam as concentrações de turbidez, sólidos em suspensão, manganês, ferro dissolvido, alumínio dissolvido e chumbo na água.

Cacique Sucupira mostra metais no solo às margens do Rio Paraopeba — Foto: Leonardo Milagres/g1

Para a analista de saúde da entidade que presta assessoria técnica independente aos indígenas, Núbia Vieira, o fim das atividades realizadas no rio – que garantia a comida na mesa da comunidade e era o principal lugar de brincadeira das crianças – também gera impactos na saúde mental.

“Além de ter perdido seu meio de vida e de trabalho, existe uma falta de perspectiva de futuro. As gerações que estão crescendo agora estão convivendo com essa falta de perspectiva, essa espera pela reparação”, disse Núbia.

Foto: Bárbara Miranda e Luisa Rivas – Arte/g1

Reparação

Os indígenas afirmam que a Vale não reparou os danos causados pelo rompimento da barragem, e as conquistas da comunidade nos últimos cinco anos foram doadas ou obtidas judicialmente.

A própria realocação das famílias foi determinada pela Justiça, em fevereiro de 2022. Naquele ano, fortes chuvas atingiram a aldeia, o nível do Paraopeba subiu – segundo o Ministério Público Federal, devido à deposição de rejeitos de mineração na calha – e as casas, o posto de saúde e os banheiros foram tomados pela água.

Construção na aldeia Naô Xohã Paraopeba, em São Joaquim de Bicas — Foto: Leonardo Milagres/g1

De acordo com o coordenador da assessoria técnica independente, Leandro Lopes, a consultoria responsável por mensurar os danos sofridos pelos indígenas em decorrência da tragédia ainda não foi contratada, o que impede a reparação.

“Como se repara algo que não se conhece? Esse é um problema, porque a reparação só vai ser efetivada a partir da realização desse estudo de danos”, afirmou.

Futuro

Enquanto isso, cacique Sucupira e a comunidade seguem resistindo e honrando as águas, o ar e a terra como podem.

Tapurumã e o pai, cacique Sucupira, na aldeia Naô Xohã Paraopeba — Foto: Leonardo Milagres/g1

“A minha esperança é ter um território, que a gente volte com nossos costumes, nosso Awê, ter contato com o solo, voltar a banhar no rio, ter a festa das águas na comunidade, reunir com outros povos Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe e ter a reparação justa. Isso é meu sonho e meu desejo”.

Indígenas da aldeia Naô Xohã Paraopeba, em São Joaquim de Bicas. ‘Kijeme’, em Pataxó, significa ‘casa’ — Foto: Leonardo Milagres/g1

O que diz a Vale

Em nota, a Vale afirmou que “mantém o diálogo aberto com as comunidades indígenas afetadas pelo rompimento da barragem, sempre respeitando seus direitos e suas tradições”.

“Ainda em 2019, foi assinado, junto ao Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, um Termo de Ajuste Preliminar Emergencial, que definiu repasses mensais e outras obrigações da Vale, inclusive com a contratação de entidade para prestar assessoria técnica independente aos indígenas. Todas têm sido cumpridas”, disse a mineradora.

Segundo a Vale, entre 2022 e 2023, “reconhecendo e respeitando a autonomia e protagonismos dos indígenas, três grupos indígenas firmaram acordos com a empresa, homologados pelo Judiciário”.

“Esses acordos abrangem compensação integral dos danos, perdas e prejuízos individuais e coletivos, e garantem assistência à saúde complementar ao poder público até dezembro de 2027, sendo que parte desses valores já foram inclusive antecipados para os indígenas”.

A Vale afirmou, ainda, que recentemente adquiriu um terreno de mais de 300 hectares para realização da realocação temporária da aldeia Naô Xohã e que está em fase de contratação a entidade que fará os estudos socioeconômicos e de saúde referentes aos danos causados aos indígenas Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe.

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