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A cajuína cristalina: dos rituais indígenas a potência econômica do Piauí

Garrafas de cajuína, a forma tradicional de comercializar a bebida, e outros produtos do caju. Imagem: Claudio Noroes/Divulgação/Embrapa

O sabor é doce, mas não enjoa. Leve, natural e com mais vitamina C do que o suco de laranja, a cajuína colocou os olhos do Brasil no Piauí. E, no Piauí, ela virou rainha: dá nome a bares e avenidas, é chamada de champanhe, virou musa de Caetano, é a bebida que recebe as visitas e, há dez anos, é também um patrimônio nacional.

Mas o que ela tem que as outras não têm? Apesar da doçura, a bebida não leva nenhum aditivo químico e é feita a partir do suco do caju, coado várias vezes em redes ou funis de pano até estar totalmente límpida. O suco clarificado é envasado em garrafas de vidro bem fechadas e então cozido em banho-maria, o que carameliza seus açúcares e dá a ela um tom amarelo-âmbar.

Se hoje ela é hype, seu passado é ancestral. A antropóloga May Waddington Telles conta que a bebida era produzida pelos povos indígenas e fazia parte de momentos ritualísticos, com o propósito de integrar a comunidade. Os indígenas adotavam como método de produção a fermentação, que ampliava o prazo de conservação e dava à bebida algum grau alcoólico. Muitos anos depois, a cajuína foi introduzida pelas elites no processo de modernização do Piauí, associada à sofisticação das famílias produtoras, mas em sua versão sem álcool. O consumo nobre deu a ela o apelido de “champanhe do Piauí”.

May conta que, embora a cajuína exista em outros estados do Nordeste, como o Ceará, Maranhão e Rio Grande do Norte, é no Piauí que seu universo assume maior complexidade por meio da produção, do consumo familiar e de seus rituais de hospitalidade, que desempenham papel relevante na afirmação da identidade local.

Com Caetano, cajuína chega ao estrelato

Foi justamente um copo de cajuína servido para visitas que fez com que ela alçasse a fama e ganhasse uma música para ela: “Cajuína”, de Caetano Veloso. A canção nasce em 1972, durante uma visita do compositor à família de Torquato Neto, um dos principais nomes da Tropicália. Era uma visita ao pai do poeta, Dr. Heli, que havia acabado de perder o filho. De Dr. Heli, Caetano ganha um copo de cajuína e uma rosa do jardim, a tal “rosa pequenina” da canção. E da experiência saem as duas estrofes:

“Existirmos a que será que se destina? / Pois quando tu me deste a rosa pequenina / Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina / Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina / Apenas a matéria vida era tão fina / E éramos olharmo-nos intacta retina / A cajuína cristalina em Teresina”

A música foi lançada em 1979, impulsionando a popularidade da bebida. Em 2014, a cajuína se tornou Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Iphan. O novo status teve participação da Cooperativa de Produtores de Cajuína do Piauí e contou com a defesa de um aliado: Gilberto Gil, que além de já ter emprestado sua voz para a música de Caetano, era o ministro da Cultura na época.

Segundo a antropóloga, as honrarias também fizeram com que a bebida ganhasse relevância na construção de uma identidade local piauiense, orgulhosa do seu produto, assumindo um valor simbólico dentro e fora do estado. Já estrela, a cajuína virou apelido no programa Big Brother Brasil e desfilou pela Sapucaí em um enredo sobre a cajucultura.

A bebida das visitas

A antropóloga May Waddington Telles explica que a cajuína é uma da “bebida da sala de estar”, incluída na sociedade piauiense por meio das elites, por volta dos anos 1920, sobretudo pelas mulheres, responsáveis por produzir a bebida artesanalmente em casa.

Quem nasceu e cresceu no século passado acompanhou a bebida ganhar relevância na mesa da família piauiense. De Floriano, município a 250 quilômetros da capital, Simonne Maria de Souza, 60, conta que os poucos recursos não permitiam a cajuína na infância. “Sem geladeira, não dava, porque cajuína se bebe bem gelada. E mesmo quando chegou a geladeira, ainda assim era rara”, lembra, citando o preço alto. Na casa de Simonne, ela só era tomada em aniversários, servida com bolo, beiju e cuscuz.

Vivendo há 40 anos em São Paulo, Simonne diz que visitar a família no Piauí é voltar com a mala cheia de queijo coalho, carne de sol, castanha de caju e garrafas de cajuína. Mais do que a identidade de um estado, ela é o coração do piauiense em sua versão engarrafada.

A economia da cajuína

É preciso lembrar que o produto de exportação do caju é seu fruto, a castanha, e, por muitos anos, ela era o único proveito de um conjunto formado por fruto e pseudofruto – uma clássica pegadinha dos bancos escolares. A cajuína, então, se tornou uma maneira de transformar em produto típico da região aquilo que em geral era descartado, ampliando assim as fontes para o desenvolvimento econômico da região.

Hoje, a cajuína é feita e comercializada por duas vias: por famílias de agricultores que contam com tecnologias avançadas e estrutura industrial ou por assentados da reforma agrária, que, por meio de terras oriundas de políticas públicas, conseguem se inserir na cajucultura.

“Na época em que a cajuína começou a ser produzida, existia uma diferença de classe muito exposta no Piauí: o proprietário de terra e o não proprietário. Hoje em dia, o acesso à terra espalha essa produção. Cada família tem a sua tecnologia e inventa a sua própria traquitana para fazer a bebida. Essa diferenciação faz parte da pluralidade do produto”, explica May.

Dados do Polo Sebrae Agro mostram que a produção de cajuína movimenta R$ 70 milhões por ano e gera 37 mil empregos no estado. O volume comercial faz com que existam organizações como a Pró Cajuína (União das Associações, Cooperativas e Produtores de Cajuína do Estado do Piauí) e Cajuespi (Cooperativa dos Produtores de Cajuína do Estado do Piauí). A Cajuespi estima que existam cerca de 3.000 produtores da bebida no estado, entre formais e informais.

Um deles é a Lili Doces, empresa que começou há mais de 60 anos em uma fazenda familiar em Ipiranga, a 262 quilômetros de Teresina. Além da cajuína, a empresa produz mais de 50 tipos de frutas desidratadas e doces, como o de buriti, bastante comum na região. O negócio leva o nome de Elisabeth Lopes, que foi a dona da empresa e aprendeu a fazer cajuína em casa.

Segundo José Raimundo Lopes, filho de Elisabeth e sócio do negócio, a empresa tornou-se uma das maiores produtoras de cajuína no estado – cerca de 25% das garrafas do Piauí passam pela Lili Doces, que produziu 750 mil garrafas da bebida em 2023. Nos meses de maior produção, são 15 mil garrafas por dia.

Lopes explica que a cajuína só pode ser produzida durante a safra, de julho e outubro. “Não tem como armazenar o caju para fabricar depois. Por isso, temos que chegar no final da safra com garrafas suficientes para o período da entressafra.”

Seja em uma grande propriedade ou em um pequeno lote de terra, a produção se mantém artesanal e o tempo do caju é quem dita as regras do jogo.

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