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Roraima lidera assassinatos de indígenas no Brasil, aponta relatório do Cimi

Cômodo da casa em que casal de indígenas foi assassinado e tiros em 2025 em Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR/Arquivo

Roraima teve alta no número de mortes de indígenas em um ano e registrou 82 assassinatos em 2025, o maior número entre os estados brasileiros. O dado consta no relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, divulgado nesta quinta-feira (13) pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em Brasília.

Roraima teve 25 vítimas indígenas assassinadas a mais em 2025, em comparação com o ano anterior, quando foram 57 casos em 2024.

Em todo Brasil, foram registrados 258 assassinatos de indígenas em 2025.

Em nota, o governo federal, por meio do Ministério dos Povos Indígenas, informou que a atual gestão do pais tem adotado medidas que garantem a proteção dos territórios (leia a nota na íntegra mais abaixo).

Destacou ainda que “a redução da violência contra os povos indígenas exige uma atuação permanente e articulada do Estado, que combine demarcação e proteção territorial, enfrentamento às invasões e às atividades ilícitas, fortalecimento dos órgãos públicos e responsabilização dos autores de crimes. É nesse conjunto de políticas que o Governo Federal tem concentrado esforços para garantir, na prática, os direitos assegurados pela Constituição aos povos indígenas.”

A violência em Roraima é influenciada por diferentes fatores, entre eles a invasão de terras indígenas por garimpeiros, a migração dessas atividades para outros territórios após ações de combate ao garimpo ilegal e as fragilidades na assistência à população indígena. A avaliação é de Roberto Liebgott, um dos organizadores do relatório. Ele também aponta a falta de fiscalização e problemas no atendimento básico de saúde como fatores que agravam a vulnerabilidade das comunidades.

“A ausência de proteção dos territórios favorece a invasão de garimpeiros tanto no território Yanomami quanto na Raposa Serra do Sol, além das fragilidades que detectamos em relação à atenção básica em saúde indígena”, pontuou.

Os dados sobre os assassinatos foram compilados pelo Cimi a partir de informações do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), das secretarias estaduais de Saúde e da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (Sesai), obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação e de bases públicas.

O Cimi é um órgão ligado à Igreja Católica que atua na defesa dos direitos, da cultura e dos territórios dos povos indígenas.

Casos citados pelo relatório

Entre os casos de assassinatos de indígenas em Roraima detalhados pelo Cimi no relatório de 2025 estão:

  • Itaci Yanomami, de 25 anos: foi assassinado em 28 de novembro de 2025, durante um conflito com garimpeiros na região da Taboca, dentro da Terra Indígena Yanomami. O jovem foi vítima de um confronto com invasores armados na região.
  • Adolescente Yanomami, de 16 anos: morreu em dezembro de 2025 durante um confronto entre indígenas das comunidades Maloca Paapiu e Catrimani, na região do Alto Catrimani. O Cimi cita que os conflitos internos se tornaram mais letais com a distribuição de armas de fogo no território associada à presença do garimpo ilegal.
  • Casal Warao: os indígenas venezuelanos Yerferson de Jesus Montilla Matos e Myiela Perez Cardona foram assassinados a tiros em 8 de janeiro de 2025, no abrigo Pintolândia, em Boa Vista. O casal foi morto dentro do próprio barraco de lona, diante dos sete filhos. À época, um bebê de 4 meses, filho deles, também foi baleado.

Atrás de Roraima no número de indígenas assassinados no país estão o Amazonas, com 47 casos, e Mato Grosso do Sul, com 37.

Mortes de crianças indígenas

O relatório também mostra que Roraima registrou aumento no número de mortes de crianças indígenas de até quatro anos pelo segundo ano seguido, e permaneceu na segunda posição nacional, atrás apenas do Amazonas.

Em 2025, foram 158 mortes de crianças indígenas de até quatro anos em Roraima. Em 2024, foram 139 mortes. O aumento foi de 19 óbitos, ou 13,7%, em um ano. No Amazonas, foram registrados 306 mortes no ano passado.

Segundo o relatório do Cimi, parte das mortes de crianças indígenas ocorreu por causas consideradas evitáveis, como gripe, pneumonia, doenças infecciosas intestinais e desnutrição.

O levantamento é publicado anualmente pelo Cimi, órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Nota na íntegra do MPI

“O Governo Federal defende que a proteção dos povos indígenas passa necessariamente pela garantia de seus territórios. Nesse sentido, o fortalecimento institucional da FUNAI e a criação do Ministério dos Povos Indígenas são decisões de governo imprescindíveis para a promoção e a execução de uma política indigenista permanente, articulada e capaz de assegurar os direitos previstos na Constituição Federal.

Uma das prioridades do Governo Federal desde 2023 foi a retomada da política de demarcação de Terras Indígenas, após anos de paralisação. Desde o início da atual gestão, foram homologadas 20 Terras Indígenas, que somam mais de 3,2 milhões de hectares, além da assinatura de 21 portarias declaratórias, abrangendo outros 1,5 milhão de hectares. Também foram constituídas 31 Reservas Indígenas, totalizando cerca de 86 mil hectares, e 18 territórios indígenas foram delimitados, totalizando 7,5 milhões de hectares.

Além disso, foram reativados 51 grupos técnicos responsáveis por estudos de identificação e delimitação, com 160 grupos técnicos em curso na atual gestão. Esses números demonstram que a retomada da política de demarcação envolve diferentes etapas administrativas e técnicas, que precisam ser concluídas para que os territórios avancem até a homologação e a regularização definitiva.

A garantia territorial também é acompanhada de ações de proteção e combate às invasões e às atividades ilícitas. Até o momento, 12 Terras Indígenas passaram por processos de desintrusão, beneficiando diretamente mais de 67 mil indígenas e contribuindo para a proteção de 27,5 milhões de hectares.

A redução da violência contra os povos indígenas exige uma atuação permanente e articulada do Estado, que combine demarcação e proteção territorial, enfrentamento às invasões e às atividades ilícitas, fortalecimento dos órgãos públicos e responsabilização dos autores de crimes. É nesse conjunto de políticas que o Governo Federal tem concentrado esforços para garantir, na prática, os direitos assegurados pela Constituição aos povos indígenas.”

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