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Pesquisa da UFF rastreia bens culturais indígenas e ajuda a reconstruir conhecimentos Katxuyana e Kahyana

Pesquisa da UFF rastreia bens culturais indígenas e ajuda a reconstruir conhecimentos Katxuyana e Kahyana | Foto: Divulgação/UFF

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal Fluminense (UFF) há mais de uma década vem investigando a trajetória de bens culturais dos povos indígenas Katxuyana e Kahyana que foram retirados de seus territórios e incorporados a coleções de museus no Brasil e na Europa. O trabalho, construído em diálogo direto com as comunidades indígenas, reúne investigação sobre patrimônio, memória, território e transmissão de conhecimentos tradicionais.

Parte dos resultados dessa pesquisa integra, a partir desta quarta-feira (26), a exposição “Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros”, no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém (PA). A mostra reúne artefatos, fotografias, documentos, registros audiovisuais e narrativas produzidas a partir das perspectivas dos próprios Katxuyana e Kahyana.

Na UFF, a pesquisa é conduzida pela professora Adriana Russi, do Departamento de Artes e Estudos Culturais, que também participa da assistência curatorial da exposição. A relação da pesquisadora com os Katxuyana começou em 2009, em Cachoeira Porteira, no município de Oriximiná (PA), durante atividades do projeto de extensão Educação Patrimonial em Oriximiná.

A partir desse primeiro contato, a investigação avançou para o estudo da casa tradicional tamiriki e, posteriormente, para uma questão apresentada pelas próprias comunidades: descobrir o que havia acontecido com bens culturais retirados de seus territórios e levados para instituições museológicas.

“Conheci os Katxuyana em 2009, em Oriximiná, quando estava realizando atividades do projeto de extensão Educação Patrimonial. Fiz meu doutorado com eles sobre a casa tradicional tamiriki. Naquele momento, eles me pediram para saber mais sobre seus bens culturais que tinham sido levados para museus no Brasil e na Europa. Desde então, sigo dialogando e aprendendo com eles”, relata Russi.

Pesquisa também documenta conhecimentos tradicionais

O trabalho ganhou uma nova frente em 2025, quando a UFF autorizou a participação da pesquisadora no projeto “Artes do Txamatxama”, integrado ao Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A iniciativa busca documentar e fortalecer conhecimentos relacionados às artes plumárias dos povos Katxuyana, Kahyana e Yatxkuryana. O projeto reúne pesquisadores indígenas e não indígenas e adota o protagonismo das próprias comunidades na produção e na organização do conhecimento.

Um dos elementos centrais desse universo de pesquisa é o txamatxama, artefato plumário de forte significado cultural, espiritual e político. O objeto está associado à identidade desses povos, à transmissão de conhecimentos e às práticas tradicionais, funcionando também como elemento de conexão entre pessoas, territórios e memórias.

Mais do que catalogar objetos, a pesquisa procura compreender os conhecimentos e as relações sociais associados a eles. Nesse sentido, os artefatos preservados em museus deixam de ser vistos apenas como peças de coleção e passam a ser analisados também a partir da história de seus deslocamentos, dos vínculos que mantêm com seus povos de origem e dos conhecimentos relacionados à sua produção e utilização.

Ciência construída em parceria com as comunidades

A metodologia do trabalho também chama atenção por deslocar o modelo tradicional em que pesquisadores externos são os únicos responsáveis pela produção e interpretação dos dados. No projeto, as comunidades participam da construção das perguntas, das pesquisas e da definição das formas de apresentação dos resultados.

Esse processo está refletido na própria exposição do Museu Goeldi. Antes da montagem, foram realizadas oficinas nas aldeias, nas quais os indígenas participaram da concepção do percurso expositivo e da definição de como suas histórias deveriam ser apresentadas ao público.

A exposição aborda um período marcado, especialmente a partir da década de 1960, por deslocamentos forçados, dispersão de famílias e retirada de objetos e pertences tradicionais dos territórios indígenas. Ao mesmo tempo, evidencia como conhecimentos, vínculos territoriais e práticas culturais permaneceram ativos apesar desses processos.

Nas últimas décadas, os Katxuyana e Kahyana intensificaram movimentos de retorno e retomada de sua presença física, política e cosmológica nos territórios tradicionais. Esse processo teve um marco recente com a homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, em 2025.

Nesse contexto, a pesquisa acadêmica passa a funcionar também como instrumento para reunir informações dispersas em arquivos, coleções e memórias, permitindo reconstruir trajetórias de objetos e conhecimentos que foram separados de seus contextos de origem.

Museus também entram no campo da pesquisa

Outro aspecto científico relevante do projeto é a investigação sobre o próprio papel dos museus e das coleções etnográficas. Ao colocar pesquisadores e representantes indígenas em contato com objetos preservados em instituições brasileiras e europeias, o trabalho questiona modelos históricos de formação de acervos e abre espaço para novas formas de colaboração entre instituições científicas e povos indígenas.

A exposição, portanto, não representa apenas a apresentação de objetos ao público. Ela é também resultado de um processo de pesquisa, documentação e produção compartilhada de conhecimento. Para a UFF, a experiência demonstra como pesquisa e extensão podem atuar conjuntamente em projetos desenvolvidos com povos indígenas, especialmente em áreas como patrimônio, memória, território e conhecimentos tradicionais.

A exposição “Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros” é realizada pela Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK), em parceria com o Instituto Iepé, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a UFF, no âmbito do Ano Cultural Brasil–Reino Unido 2025–26, promovido pelo British Council. A mostra abre ao público em 26 de agosto, no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA).

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