A mineradora 3D Minerals, financiada pelo Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, possui 88 projetos de exploração de minerais críticos sobrepostos ou situados na zona de impacto de 127 áreas protegidas no País, entre elas dez terras indígenas, cinco territórios quilombolas, 89 assentamentos da “reforma agrária” e 23 unidades de conservação. Ao menos 73 dessas áreas minerárias já receberam autorização de pesquisa da Agência Nacional de Mineração (ANM), segundo dados de abril de 2026.
A informação foi revelada em investigação publicada pela Repórter Brasil em 3 de novembro. Entre as terras indígenas potencialmente atingidas estão Kayapó, Mãe Maria e Xikrin do Rio Cateté, no Pará; Yanomami, em Roraima; e Kayabi e Piripkura, no Mato Grosso. A lista inclui ainda os quilombos Lagoa Grande, em Minas Gerais; Pitombeira, na Paraíba; e Kalunga e Família Magalhães, em Goiás.
O levantamento foi realizado a partir de dados do Observatório da Transição Energética. Os requerimentos envolvem cobre, lítio, bauxita, cassiterita e “terras raras”, matérias-primas cobiçadas pelas indústrias bélica e tecnológica, entre outras. A sobreposição ou proximidade dos projetos indica risco potencial aos territórios, embora as autorizações de pesquisa não signifiquem, por si, permissão para extração mineral.
ANM autoriza pesquisa em quilombo sem consultar moradores
No quilombo Família Magalhães, no norte de Goiás, a ANM autorizou, em janeiro de 2025, a pesquisa de “terras raras” requerida pela 3D Minerals sobre uma área do território tradicional. A autorização foi concedida sem consulta prévia aos moradores, cinco meses depois de a empresa arrematar o direito minerário no leilão do próprio órgão.
Reconhecida como quilombola há 22 anos, a comunidade Família Magalhães ainda aguarda a titulação definitiva de suas terras. Ao examinar o requerimento da mineradora, porém, a ANM não registrou qualquer impedimento: “A área objetivada está livre, conforme relatório de retirada de interferência”, concluiu o documento obtido pela Repórter Brasil.
A autorização desconsiderou tanto a presença dos moradores quanto seu direito à consulta prévia, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “Ninguém procurou a gente. Nada aconteceu até o momento”, denunciou Gilvan Magalhães, liderança quilombola, preocupado com o avanço da mineração sobre o território.
A área requerida pela 3D Minerals também está na zona de impacto do quilombo Kalunga, um dos maiores territórios quilombolas do País, e faz divisa com o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Os moradores de Kalunga tampouco foram consultados antes da autorização.
A comunidade trava há mais de uma década uma batalha judicial contra os requerimentos minerários. Em 2018, a Justiça Federal determinou a suspensão de processos incidentes sobre o Sítio Histórico Kalunga e exigiu a consulta aos moradores antes de novas autorizações. A ANM, contudo, continuou autorizando pesquisas até que o Ministério Público Federal cobrou judicialmente o cumprimento da decisão, em outubro de 2025. Segundo a investigação, a anulação dos requerimentos atingidos pela sentença foi concluída somente em 2026.
Questionada, a ANM alegou que a legislação não impede a mineração em territórios quilombolas e assentamentos e, por isso, não exclui automaticamente essas áreas dos processos. Segundo a agência, restrições totais são aplicadas às terras indígenas e às unidades de conservação de proteção integral.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou, em 2025, 210 casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos e outros danos ao patrimônio em 151 terras indígenas. Em Autazes (AM), o projeto de potássio do monopólio canadense Brazil Potash se sobrepõe, segundo a Funai, ao território tradicional do povo Mura; na Volta Grande do Xingu (PA), a também canadense Belo Sun teve sua licença questionada pela Funai por ignorar comunidades indígenas nos estudos de impacto. A proposta de regulamentar a mineração nessas terras, que abriria sua exploração às grandes empresas, foi caracterizada pelo secretário-executivo do Cimi, Luis Ventura Fernández, como “uma invasão total dos territórios indígenas”.
Master emprestou R$ 152,9 milhões à mineradora recém-criada
Em agosto de 2024, apenas 45 dias depois de fundada, a 3D Minerals arrematou 276 áreas minerárias em leilão da ANM, 116 delas destinadas a minerais críticos. Foi a maior vencedora do certame, segundo investigação da Folha de S.Paulo.
Três meses após o leilão, em novembro de 2024, a mineradora recebeu um empréstimo de R$ 152,9 milhões do Banco Master para financiar a aquisição das áreas. Em garantia, o banco obteve direitos sobre metade das participações societárias da empresa, pertencente aos irmãos Daniel e Eduardo Wanderley, empresários mineiros do setor da construção civil que haviam ingressado recentemente na mineração.
O empréstimo foi transferido ao Banco de Brasília (BRB) em julho de 2025, no âmbito das operações de cessão de crédito entre as instituições. O Banco Central liquidaria o Master em meio a investigações sobre fraudes financeiras e operações irregulares com o BRB.
As investigações sobre o Master também expuseram a teia suprapartidária e multi-institucional de relações de Vorcaro: o banqueiro negociou com Flávio Bolsonaro o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, manteve contatos com Ciro Nogueira e integrantes do Congresso de corruptos e do Supremo Tribunal Federal (STF), além de ter sido recebido por Luiz Inácio fora da agenda oficial. Mensagens e documentos da investigação também apontam relações com dirigentes do BRB e servidores do Banco Central, alcançando diferentes setores da extrema direita, da falsa esquerda e das instituições do velho Estado.
Minerais críticos na mira da rapina ianque
A empresa ianque USA Rare Earth concluiu, em 3 de setembro, a aquisição da mineradora Serra Verde, que opera a mina Pela Ema, em Minaçu (GO), em um negócio anunciado em abril por 2,8 bilhões de dólares (cerca de R$ 14 bilhões à época). O acordo inclui um contrato de 15 anos para destinar toda a produção inicial de “terras raras” a uma estrutura financiada pelo governo ianque e por capital privado. A mina fornece minerais empregados na produção de ímãs para drones, equipamentos eletrônicos e outras indústrias de alta tecnologia e bélica.
Com a aquisição da Serra Verde, a USA Rare Earth passou a integrar a extração e o processamento realizados no Brasil às suas operações de separação, metalurgia e fabricação de ímãs no país Estados Unidos (EUA) e na Europa. Enquanto isso, a Câmara dos Deputados aprovou, em maio, uma política para minerais críticos com previsão de até R$ 5 bilhões em incentivos fiscais ao setor, e Luiz Inácio negociava com Washington a participação de empresas estrangeiras na exploração e no beneficiamento desses minérios.
No quilombo Família Magalhães, além do requerimento da 3D Minerals, seis pedidos de exploração de “terras raras” da mineradora canadense Aclara se sobrepõem ao território. A empresa requereu a lavra em maio, enquanto a consulta aos moradores, conduzida pelo Incra, só começou em julho. A Aclara afirma que excluirá a área quilombola do projeto na fase de licenciamento ambiental.





