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Invasão de caçadores ameaça vida de indígenas isolados no Vale do Javari

Vestígios de caçadores foram encontrados perto de área de circulação de indígenas isolados no Vale do Javari - Imagem cedida/Alfredo Marubo

A Rede Javari, ligada ao Observatório dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) denunciou a invasão de caçadores próximos de indígenas isolados na Terra Indígena (TI) Vale do Javari, no Amazonas.

Esses invasores são não indígenas que fazem a caça comercial de animais para vender a carne – ao contrário dos povos originários, que só caçam para subsistência e são os únicos autorizados a usufruir da flora e fauna no território.

O encontro de caçadores com indígenas isolados é potencialmente catastrófico, pois pode terminar em conflito e assassinatos. Foi o que aconteceu em 1989, quando um três indígenas Korubo, que então viviam em isolamento voluntário, foram mortos a tiros por caçadores e pescadores não indígenas.

“Eu já vi que os madeireiros e caçadores ficam assassinando índios Korubo aqui nessa região do Vale do Javari. Então se os índios isolados se encontrarem com os caçadores naquela região, dá um problema. Eles [caçadores] matam, dão tiro. Aí ninguém fala e ninguém sabe. Mas depois disso os invasores somem e continuam caçando naquele lugar”, disse ao Brasil de Fato o líder indígena Alfredo Marubo.

Vestígios dos caçadores

No começo de março, Alfredo Marubo e outros indígenas da mesma etnia encontraram na mata vestígios desses invasores, como sacos plásticos, botas e uma habitação improvisada. Eles fotografaram tudo e queimaram os resíduos plásticos para evitar a contaminação do solo.

“Encontramos uma armadilha no caminho dos animais, onde passa paca [uma espécie de roedor]. Seguimos caminhando e achamos sal. Eles deixaram plásticos onde eles salgaram carne. Tem muito plástico jogado. Aí continuamos caminhando e vimos um rastro dos índios isolados”, afirmou Alfredo Marubo.

Isolados e refugiados

Indígenas isolados são normalmente aqueles que tiveram um contato traumático com os não indígenas, e por isso decidiram se isolar em áreas remotas da floresta. Seus sistemas imunológicos são muito mais suscetíveis a doenças respiratórias e infectocontagiosas.

O Vale do Javari, segunda maior TI do Brasil, é a região com mais alta concentração desse povos em todo o planeta, com 19 registros de indígenas isolados.

Embora seja quase toda preservada, a área, que tem quase o tamanho de Portugal, é ameaçada constantemente por madeireiros, caçadores e garimpeiros, que se organizam em quadrilhas armadas e influentes no poder local.

A terra que Bruno e Dom morreram tentando proteger

O Vale do Javari é a terra indígena onde foram assassinados o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips há quase dois anos. Ambos se opunham à pesca comercial clandestina, e por isso foram vítimas de uma quadrilha de pescadores ilegais.

No início de 2023, o governo federal instalou uma base flutuante para reforçar a segurança no território, mas indígenas da região dizem que nada mudou desde os assassinatos e demandam mais políticas públicas voltadas a seus parentes isolados.

Observatório defende novas bases de proteção

Manoel Chorimpa, do povo Marubo, que mora perto do local onde foram encontrados vestígios dos caçadores, integra o Observatório dos Indígenas Isolados. Ele diz que é urgente a criação de novas bases de proteção para monitoramento de invasores no Vale do Javari.

“Os grupos isolados não querem saber da realidade do celular, do notebook, da internet que nós estamos tendo aqui. Eles estão preocupados, eles estão vivendo a vida deles e a vida deles é normal. Não é necessário aderir ao sistema do mundo moderno que estamos vivendo, que é tão problemático”, opinou Chorimpa.

Outro lado

A nova denúncia da invasão de caçadores foi enviada pelos indígenas à Funai. O Brasil de Fato entrou em contato com o órgão indigenista, mas não teve resposta até o fechamento da reportagem.

Em janeiro deste ano, o governo federal lançou um plano coordenado pelo Ministério dos Povos Indígenas que destina R$ 13,9 milhões para reprimir crimes, expulsar invasores, destruir instalações ilegais, além de garantir a fiscalização plena do território.

O plano conta com apoio de no mínimo 55 pessoas das Forças Armadas, Polícia Federal, Força de Segurança Nacional, Funai, ICMBio e Ibama.

Os objetivos são a repressão aos crimes, extrusão de invasores, destruição de instalações ilegais, fiscalização, monitoramento e vigilância para garantir “posse plena” e garantia do “usufruto exclusivo desta Terra Indígena em favor dos povos indígenas”.

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