Indígenas Pataxó publicaram uma carta onde apontam pistoleiros como autores do ataque que feriu, a tiros, duas turistas, nesta terça-feira (24), no município de Prado, no sul da Bahia, na área de Terra Indígena Comexatibá. O local é marcado por conflitos fundiários e pela violência contra os povos indígenas.
A carta, publicada pelo Coletivo de Lideranças Indígenas da Terra Indígena Comexatibá e veiculada pelo site e pelas redes sociais da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), pede proteção à população do território e relata um ataque sofrido na manhã desta terça-feira (24).
O documento informa que os Pataxó foram surpreendidos com um cerco às estradas de acesso ao distrito de Corumbau, no município de Prado, onde as turistas foram baleadas. De acordo com os indígenas, motos, carros e helicópteros foram usados em uma manifestação “promovida por fazendeiros da extrema direita”.
“Os disparos efetuados por pistoleiros acabaram atingindo duas turistas que se dirigiam às praias”, informa o documento. As turistas baleadas foram socorridas e levadas para uma unidade de atendimento. Não há informações sobre o estado de saúde delas.
“Queremos afirmar de forma clara e inequívoca que os disparos que atingiram as turistas não foram efetuados por indígenas do movimento pela Terra Indígena Comexatibá”, afirma o coletivo.
Ainda pela manhã, passaram a circular pelas redes sociais a informação de que os autores dos disparos eram indígenas – informação que não foi confirmada pelos órgãos oficiais que enviaram representantes ao local, como a Polícia Federal (PF) e a Polícia Civil.
Em nota publicada no site oficial, a PF informa que cinco pessoas foram detidas na área. Já a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia diz que 12 pessoas foram conduzidas à delegacia para investigação sobre envolvimento no caso.
“O que vem ocorrendo é uma escalada de ações de grupos armados e organizados por interesses privados — sobretudo fazendeiros e suas redes de comunicação — que buscam criminalizar nosso movimento e confundir a opinião pública”, informa o documento divulgado pelos Pataxó. A carta denuncia, ainda, a cooptação de indígenas pelo movimento ruralista da área.
“Organizações investigativas e relatos de comunidades indicam que fazendeiros têm usado lideranças fragilizadas de aldeias vizinhas — em especial da TI Águas Belas e da aldeia Tawá — para promover conflitos internos, dividir nossas comunidades e colocar indígenas uns contra os outros”, afirma o documento.
Em novembro de 2025, a Terra Indígena Comexatibá foi declarada de posse permanente do povo Pataxó pelo Ministério da Justiça. O reconhecimento é um avanço na demarcação do território.
No dia 8 de fevereiro, indígenas Pataxó iniciaram a retomada da Fazenda Barra do Cahy, de 677 hectares. A área dá acesso à praia apontada como o local do primeiro contato entre portugueses e povos originários, em 1500, e está integralmente sobreposta à TI Comexatibá.
No fim da tarde do mesmo dia, os indígenas foram retirados do local por forças policiais. Segundo relatos das lideranças, a ação foi realizada sem apresentação de mandado judicial no momento da abordagem.
Em entrevista à reportagem do Brasil de Fato, que esteve na área há poucos dias, indígenas Pataxó relataram as ameaças. “Nossas crianças não conseguem nem ir para a escola sem medo”, relatou uma das lideranças durante a retomada da Barra do Cahy.
Histórico da violência
Em abril de 2025, o indígena pataxó João Celestino Lima Filho, 50 anos, foi assassinado em mais um caso de violência relacionada a conflito fundiário na região. O caso aconteceu na área da TI Comexatibá.

Organizados na retomada da fazenda Jarapa Grande, propriedade sobreposta à área reivindicada como território indígena, os Pataxós foram atacados por homens armados. João Celestino foi baleado no abdômen e chegou a ser levado para uma unidade de atendimento de saúde, mas não resistiu.
Pouco antes, em março de 2025, uma família Pataxó teve a casa incendiada no território Comexatibá. O crime aconteceu enquanto cerca de 300 indígenas dos povos Pataxó e Tupinambá participavam, em Brasília (DF), da audiência pública que discutia a demarcação de terras indígenas na Bahia.
O sul da Bahia é área de criação do movimento Invasão Zero, grupo ruralista investigado por envolvimento no assassinato de Maria de Fátima Muniz Pataxó, a Nega Pataxó. O crime aconteceu em janeiro de 2024, no município de Pau Brasil, a cerca de 70 quilômetros de Prado.
De acordo com informações do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o território é cobiçado por agentes do agronegócio e dos setores imobiliário e do turismo.





