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Educação indígena: conheça a escola que resiste na ‘pequena floresta’

Escola indígena Ka'Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

Ka’Aguy Miri significa “pequena floresta” no idioma Mbya-Guarani. É o nome de uma aldeia onde vivem cerca de 20 indígenas no bairro Extrema, em Porto Alegre, e da escola instalada nela. Atualmente com sete alunos matriculados, a escola foi criada em 2012 por iniciativa do cacique, Maurício Messa, que preconiza o estudo das crianças da aldeia. Mas, até hoje, a escola só atende os anos iniciais do ensino fundamental e enfrenta problemas de infraestrutura. Quando os alunos chegam na idade que corresponde às demais etapas escolares, os professores precisam pensar em alternativas para que eles não deixem de estudar.

O estabelecimento de ensino é de responsabilidade da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e funciona em uma espécie de galpão na entrada da aldeia. Conta com dois professores: Isabelino Aguirre, que ensina o idioma Mbya-Guarani, e Vanessa Chaves Rosa, que se desloca de Viamão todos os dias para dar aula. Alunos de idades diferentes compartilham a mesma sala de aula, como ocorre em outras escolas indígenas e rurais. “Nós, indígenas, é diferente”, diz o cacique. “Tem alguns que aprendem mais ligeiro, outros mais devagar”.

A preocupação do cacique Maurício, no entanto, é com as crianças que já poderiam estudar para além do quinto ano. “Como liderança, tenho que pensar sobre as crianças. Quando chega no sétimo, oitavo ano, elas já têm o direito de passar para outra escola. Tem uma escola na outra aldeia também, mas é longe, não tem transporte, não tem nada”, relata.

Escola indígena Ka’Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

De fato, sair e entrar da aldeia é difícil – sobretudo quando chove. A estrada de chão é longa e, em certo trecho, bastante íngreme.

O cacique comunicou sua preocupação à Seduc, que visitou a aldeia no dia 2 de junho deste ano. Os representantes da secretaria afirmaram que uma nova escola será construída na aldeia para ampliar a faixa etária atendida, mas não deram um prazo para a obra.

Ao Sul21, a Seduc informou que a visita técnica à escola Ka’Aguy Miri teve o objetivo de ouvir a comunidade e avaliar suas demandas. “Na ocasião, não houve demanda para a oferta dos anos finais do Ensino Fundamental. A previsão é de que essa demanda surja apenas em 2026, quando três estudantes atualmente matriculados no 5º ano alcançarão a etapa seguinte”, afirma a pasta.

No entanto, pelo menos duas crianças que já têm idade para passar do quinto ano continuam frequentando as aulas sem estarem matriculadas na escola.

“Agora eles vão crescendo e vão chegando ao sexto ano. Aqui vai até o quinto, né? Então precisaria ter a partir do sexto ano. Aqui é a escola de mais difícil acesso da primeira coordenadoria, então, para eles saírem daqui e irem para uma outra escola, já é difícil”, diz a professora Vanessa.

Escola indígena Ka’Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

O professor Isabelino cita uma criança que está nesta situação: “O Bruno. Para ele não ficar sem estudo, ele vem aqui. Eu converso com a professora sobre qual atividade poderíamos dar para sexto ano. Ele está vindo, mesmo estando mais adiantado que os outros, mas não está matriculado em nenhuma escola”.

“Ele ficou repetindo para ficar aqui, mas ele já tinha condições de passar”, complementa a professora Vanessa. “Depois ele não ia ficar sempre no quinto ano, então a gente pensou no que fazer, várias alternativas, até de outra escola”.

Outra aluna, chamada Eliana, está na mesma situação de Bruno. “Ela também precisaria que tivesse o Fundamental II, sexto ano em diante. Então ela está fazendo um reforço”, afirma a professora.

Escola indígena Ka’Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

Em uma sala de aula onde os elementos fixados nas paredes lembram como se chamam as frutas, animais e partes do corpo no idioma Mbya-Guarani, os professores falam da importância para a aldeia de manter a educação indígena.

“Eles até podem frequentar uma escola de fora, mas a gente já ouviu falar de questões que acontecem, desse choque cultural, das pessoas não entenderem. É uma outra forma, outra linguagem, outro ritmo”, pondera Vanessa. “E o idioma também. Quando tem o professor Guarani presente, ele trabalha também a escrita. A oralidade não se perdeu, mas fazer o registro escrito, para essa nova geração, é importante”.

Escola indígena Ka’Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

Banheiro inacabado

Maurício conta que a escola foi construída quando a aldeia conseguiu ajuda da assistência social, que enviou material para a construção de casinhas pré-montadas. Na ocasião, sobrou material equivalente a uma moradia. “Como sobrou uma casa, aí eu pensei na criança. De repente falei: não, eu acho que uma sala eu tenho que deixar, para ver se eu consigo algumas pessoas que dão aula para criança. Aquela escolinha era de 10,5 por 7 metros”, relembra.

Cacique Maurício Messa. Foto: Bettina Gehm/Sul21

Um tempo depois, a escola foi reformada, e agora funciona num espaço um pouco maior. Tem wi-fi, geladeira e computador. A água que abastece a aldeia e a escola vem de uma nascente através de mangueiras – segundo o cacique, testes realizados frequentemente pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) demonstram a potabilidade do líquido. Há recolhimento de lixo na região.

No entanto, como o Sul21 mostrou em reportagem sobre saneamento básico e educação, a escola Ka’Aguy Miri não tem banheiro. “Os alunos têm que fazer as necessidades assim fora, no mato mesmo”, diz o cacique.

Em dado momento, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) doou materiais para a construção do banheiro comunitário a partir de uma articulação com a Secretaria Municipal de Inclusão e Desenvolvimento Humano (SMIDH) e um grupo independente de engenheiros.

Com o material todo na aldeia, o projeto de construção contou com apoio técnico dos engenheiros voluntários, que visitaram a aldeia e elaboraram um projeto básico. A construção foi iniciada, mas parou. Sobrou cimento, que acabou estragando. Maurício não quis que o banheiro ficasse inacabado: comprou material do próprio bolso, calcula ter gasto entre R$ 4 mil e R$ 5 mil.

“Já que vai se perder tudo, então é melhor eu mesmo eu comprar alguma coisinha para poder inteirar o banheiro”, relembra ele.

Banheiro comunitário da aldeia Ka’Aguy Miri está inacabado. Foto: Bettina Gehm/Sul21

De acordo com a SMS, a construção de fossas sépticas foi viabilizada pela Sesai, mas ainda não foi possível iniciar a instalação por falta de equipe técnica local.

“A mão-de-obra Mbya-Guarani são as casas de madeira, de barro. É o conhecimento que eles têm”, pondera a professora Vanessa. “Agora, esse banheiro que é do branco, alguns sabem fazer em algumas aldeias, mas são poucos. Tem que ter o encanamento, tem que ter fossa, é toda uma lógica diferente”, comenta.

A pasta afirma que não disponibilizou equipe de mão de obra direta para a construção porque a execução das obras está fora de sua competência técnica e operacional. A secretaria diz ainda que “novas tratativas estão em andamento” e que a SMIDH fará visita à comunidade para falar com o cacique da aldeia e buscar alternativas para a conclusão do banheiro comunitário, em articulação com os demais órgãos responsáveis.

‘A escola vai funcionando sem ter’

Cozinha e refeitório são outras estruturas que faltam na escola. “A merenda é feita na cozinha das gurias lá em cima, numa casinha”, conta Vanessa, indicando a parte da aldeia onde ficam concentradas as moradias. “No fogão de chão. A refeição se faz aqui na sala de aula ou ali em cima”.

Conforme a Seduc, a escola dispõe de uma supervisora escolar, com carga horária voltada para o acompanhamento e orientação das questões pedagógicas; uma servidora responsável pela alimentação escolar e uma servidora para os serviços de limpeza, além dos professores.

“Quando chove, aqui dentro, não tem problema”, diz o professor Isabelino. “O problema é o acesso, né? Depende da chuvarada que dá, tem que ficar lá. Aí a gente recupera outro dia a hora que foi perdida. Mas a gente sempre vem aqui. Vem sempre, todo dia aqui.

Escola indígena Ka’Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

Isabelino diz que, no inverno, faz muito frio dentro da sala de aula. “A janela não está bem fechada. E no verão está quente demais, não tem ar condicionado, as crianças ficam sufocando”.

“A escola vai funcionando sem ter… às vezes, as crianças estão com frio, tremendo, então falta estruturar mais, para poder ter essa estrutura para a aprendizagem delas”, complementa Vanessa.

A Seduc afirmou que o processo de contratação para que seja construído o novo prédio escolar está em tramitação. “A construção da nova escola está entre as prioridades da Secretaria”, diz a nota enviada à reportagem.

Escola indígena Ka’Aguy Miri. Foto: Bettina Gehm/Sul21

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