Um curta-metragem produzido em Roraima vai levar ao público uma narrativa sobre ancestralidade, espiritualidade e identidade indígena. “Jayeechi II: Transcendental”, dirigido e roteirizado pela artista indígena Wayüu Maria Gabriela Villalba Jaya’aliyú, conhecida como Maga, está concluído e terá a primeira exibição na Comunidade Indígena Canauanim neste sábado (5), onde parte das gravações foi realizada. A data da estreia em Boa Vista ainda será divulgada.
O filme é uma continuação de “Jayeechi: Canto para a essência do corpo, alma e mente”, produzido em 2021 pela D’Luar Maged Productions. Na nova produção, a história acompanha uma mulher indígena Wayüu e xamã que utiliza a magia ancestral para atravessar dimensões em busca de uma cantora que desapareceu no mundo espiritual.

Durante a jornada, a personagem encontra uma nova comunidade, em uma narrativa que combina elementos de espiritualidade indígena com música, dança e outras manifestações culturais.
Um dos elementos centrais da produção é o Jayeechi, canto tradicional do povo Wayüu. A obra também busca registrar aspectos da cultura e da visão de mundo indígena a partir da perspectiva da própria realizadora.

“Este filme foi feito com muita dedicação e delicadeza. Ele precisava de atenção, porque estamos falando da nossa essência indígena e de uma cosmovisão que é diferente”, afirma Maga.
Para a diretora, além da experiência cinematográfica, o curta representa uma forma de preservar memórias e referências culturais para outras gerações.
“Cada pessoa vai encontrar uma forma diferente de assistir ao filme. Cada espectador vai construir sua própria interpretação a partir da sua história de vida. Mas, para nós, indígenas, existe também uma outra dimensão: deixar para as novas gerações um registro da nossa memória, da nossa identidade e da nossa forma de enxergar o mundo”, explica.
Filme também marcou relação com a comunidade
A Comunidade Canauanim teve participação nas gravações e será o primeiro local a receber uma exibição da produção. A escolha, segundo a equipe, está relacionada ao vínculo construído durante o processo de realização do filme.

Maga também destaca que a movimentação provocada pelas gravações contribuiu para aproximar outros grupos e iniciativas culturais da comunidade.
“É muito bonito perceber que, desde que começamos a movimentar as gravações, muitos grupos artísticos, produtores culturais e festivais passaram a desenvolver atividades junto à comunidade. Isso significa que ela ganhou mais visibilidade. E ainda há muito a ser feito”, afirma.
A relação da diretora com a comunidade também teve um significado pessoal. Nascida na Venezuela, Maga conta que a experiência de produção em Roraima contribuiu para uma reconexão com suas origens Wayüu.
“Graças a este filme, eu resgatei totalmente a minha identidade Wayüu. Foi muito mais do que realizar uma produção audiovisual. Foi também um reencontro comigo mesma, com minhas raízes e com aquilo que eu carrego da minha ancestralidade”, relata.
As gravações passaram por diferentes pontos de Roraima, incluindo a Comunidade Canauanim, o Mirante Edileusa Lóz e o rio Branco.
Produção independente

Outro aspecto destacado pela diretora é a participação de mulheres na produção audiovisual independente. O filme foi realizado sem depender de uma grande produtora e envolveu profissionais de diferentes áreas, incluindo direção, produção, fotografia, edição, figurino, sonoplastia e trilha sonora.
“Eu considero muito importante que mulheres possam se desligar de grandes empresas e também criar seus próprios filmes e projetos audiovisuais. Nem todas temos o privilégio de ter uma grande produtora ao nosso lado. Muitas vezes precisamos construir tudo com os recursos que temos, com muita dedicação e persistência”, afirma Maga.
“Jayeechi II: Transcendental” foi contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 001/2024/LPG, da Lei Paulo Gustavo, voltado ao fomento de projetos culturais no segmento audiovisual em Roraima.





