O conhecimento cultivado pelo agricultor Estevão Rodrigues, no território indígena Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, tornou-se a base de um projeto que integra ciência, extensão universitária e saberes tradicionais. A experiência desenvolvida em sua propriedade, onde uma mandala ecológica reúne produção de alimentos e criação de peixes, está inspirando a implantação de um sistema semelhante na Escola Indígena Brolhos da Terra.
A iniciativa faz parte do projeto de extensão interdisciplinar NUPESSA, da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do projeto “Do Alimento à Política: Saberes Ancestrais, Soberania Alimentar e Construção Participativa com o Povo Indígena Tremembé”.
Na escola, a mandala ecológica está em fase de implantação. O espaço já conta com o plantio de mudas de tomate e cebola, um sistema de reaproveitamento dos dejetos dos peixes para a produção agrícola e um chiqueiro construído para receber 100 pintinhos. A proposta é fortalecer a soberania alimentar da comunidade escolar e, ao mesmo tempo, preservar e transmitir os conhecimentos tradicionais do povo Tremembé.

Araruta transformou história de agricultor
A trajetória de Estevão Rodrigues também está ligada ao cultivo da araruta, planta que passou a produzir após buscar alternativas para cuidar da saúde da filha.
Segundo o agricultor, depois de conhecer as propriedades da planta, ele passou a cultivar a araruta para produzir a fécula extraída de sua raiz. A experiência familiar evoluiu para uma atividade reconhecida pelo beneficiamento da planta, abastecendo consumidores de diferentes regiões do Ceará.
Entre as propriedades atribuídas à araruta estão o auxílio à saúde intestinal, a possibilidade de substituir farinhas com glúten, o baixo índice glicêmico e aplicações tradicionais relacionadas ao cuidado da pele e ao efeito anti-inflamatório. O cultivo e o processamento da planta exigem técnicas específicas e respeito ao ciclo natural de produção.
Mandala ecológica se torna laboratório de aprendizagem
Foi justamente o modelo produtivo desenvolvido por Estevão que despertou o interesse da equipe do NUPESSA. A mandala ecológica reúne hortaliças, plantas alimentícias e criação de peixes em um único sistema, promovendo diversidade produtiva, equilíbrio ambiental e uso sustentável dos recursos naturais.

Na Escola Indígena Brolhos da Terra, o espaço funcionará como um laboratório vivo, servindo tanto para a produção de alimentos destinados à comunidade escolar quanto para atividades de ensino voltadas à agroecologia, sustentabilidade, segurança alimentar e valorização dos saberes ancestrais.
O trabalho é acompanhado diariamente por bolsistas do próprio território Tremembé, enquanto o CNPq garante apoio financeiro ao projeto e a equipe do NUPESSA realiza visitas técnicas e ações de divulgação.
A iniciativa fortalece a aproximação entre universidade e comunidade, demonstrando como o conhecimento científico pode dialogar com práticas tradicionais para promover desenvolvimento sustentável, educação e valorização da cultura indígena.






