A cultura e os saberes dos povos indígenas serão apresentados na França em fevereiro de 2027, por meio de uma exposição fotográfica por acadêmicas da Universidade Federal de Roraima (UFRR). A programação, intitulada ´´Raízes e rituais: um olhar sobre o cotidiano dos povos indígenas em Roraima´´, será realizada na Universidade Grenoble Alpes e contará com produção de mural, oficina de pinturas corporais indígenas e palestra sobre a construção da identidade imagética do corpo amazônico.
A iniciativa envolve a UFRR, a Secretaria de Cultura de Roraima e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). As atividades estão previstas para ocorrer entre 1º e 19 de fevereiro de 2027, nas bibliotecas Yves de la Haye, vinculadas ao Instituto de Comunicação e Mídia da universidade francesa, em Échirolles, no departamento de Isère.
Representarão Roraima a artista e acadêmica Mirla Wapichana, do curso de Artes Visuais da UFRR, e Tarcisa Leila dos Santos Araújo, vice-tuxaua Macuxi da comunidade Kapói e também acadêmica da universidade. O projeto é desenvolvido no âmbito do Núcleo de Pesquisa em Semiótica da Amazônia (NUPS) e da Rede de Pesquisadores em Comunicação e Semiótica da Amazônia (RANAUÁ), com participação de estudantes pesquisadores.

Protagonismo indígena na produção artística
Para Mirla Wapichana, levar o projeto à França representa a oportunidade de apresentar a cultura e a ancestralidade indígenas a novos públicos. Ela explica que o trabalho foi construído coletivamente, a partir de pesquisas sobre grafismos indígenas realizadas no núcleo de pesquisa da universidade.
´´Ter um projeto aprovado e a oportunidade de levá-lo para a França é muito gratificante e de uma felicidade muito grande, pois estamos levando a nossa cultura´´, afirmou.
Segundo a acadêmica, o processo envolve decisões coletivas sobre a curadoria das fotografias, a organização da exposição e a composição do mural. A preparação continuará nos próximos meses e contará com 20 fotografias, com previsão de definição dos detalhes até janeiro de 2027.
A participação de Tarcisa dos Santos também envolve a contribuição da comunidade Kapói, especialmente por meio dos conhecimentos relacionados aos grafismos e à produção artesanal. A acadêmica pretende levar peças que representem a diversidade cultural de Roraima, incluindo cestaria, trabalhos com algodão e objetos produzidos pela comunidade.
Para ela, a experiência representa uma oportunidade inédita de apresentar a própria cultura fora do país.
´´É de suma importância, porque antigamente víamos outras pessoas levarem nosso trabalho. Agora temos essa oportunidade de atravessar uma fronteira e mostrar o nosso trabalho, nossa ancestralidade, nossas crenças e sabedoria´´, destacou.
Além das fotografias e do mural, a programação prevê atividades relacionadas à pintura corporal e aos grafismos indígenas, ampliando as formas de contato do público francês com essas manifestações culturais.

Reconhecimento internacional
O professor Maurício Zouein, do curso de Jornalismo e coordenador do NUPS, explica que o projeto surgiu do trabalho de pesquisa desenvolvido pelas estudantes, que relaciona identidade, cultura e produção científica.
Para ele, a participação das acadêmicas indígenas é fundamental para que a apresentação da cultura ancestral seja feita por quem integra essas comunidades e desenvolve pesquisas sobre suas próprias realidades.
´´Fizemos questão de, ao invés de mandarmos pesquisadores, por exemplo, mandar quem de fato está trabalhando, inovando e merece ser visto. Que, neste caso, são as indígenas, alunas dos nossos cursos da Universidade Federal´´, afirmou.
O professor ressalta que a arte apresentada no projeto não se limita à dimensão estética, mas também representa a história e os conhecimentos de um povo. Segundo ele, a iniciativa pode contribuir para o diálogo entre culturas e para o respeito à ancestralidade e à natureza.

A atividade integra as ações da Cátedra Unesco em Comunicação Internacional da Universidade Grenoble Alpes, cujo projeto para o período de 2024 a 2028 inclui, entre outros temas, as culturas dos povos indígenas.
Durante a preparação para o intercâmbio, o integrante da equipe francesa Mahaman Ouattara explicou que a proposta da Cátedra também busca promover encontros entre artistas e pesquisadores de países do Sul e do Norte global. A iniciativa prevê que os artistas convidados desenvolvam trabalhos e deixem uma obra como resultado da experiência.

Apoio a internacionalização
O vice-reitor da UFRR, Silvestre Lopes, destacou que a participação das estudantes representa o resultado de um trabalho integrado entre áreas da universidade, incluindo Jornalismo e Artes Visuais.
´´Isso demonstra que a universidade, de forma unida, possa apresentar o nosso Brasil, mas em especial a cultura e os saberes indígenas, através de sua arte, levando para o mundo com essa ação na França´´, declarou.
Segundo ele, a universidade tem ampliado a participação de estudantes em experiências internacionais e está disposta a apoiar iniciativas que levem a produção científica e artística de Roraima para outros países.
A secretária estadual de Cultura e Turismo do Estado de Roraima (Secult-RR), Lulia da Silva, afirmou que a secretaria participa da parceria com o objetivo de viabilizar a viagem das acadêmicas, incluindo apoio com passagens aéreas e outras medidas possíveis.
´´Fico muito feliz em poder estar dentro desse processo para que realmente aconteça esse intercâmbio Roraima e França´´, afirmou.
A secretária também espera que a iniciativa abra caminho para novas parcerias internacionais envolvendo artistas, pesquisadores e instituições culturais de Roraima.







