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Indígenas e pescadores de Maricá enfrentam resort espanhol com bloqueios e mobilizações pela restinga

Indígenas, pescadores e moradores de Maricá, no Rio de Janeiro, erguem barricadas e bloqueiam o acesso ao canteiro de obras do resort espanhol Maraey, em agosto de 2026, durante protesto contra a destruição da restinga e as ameaças às comunidades tradicionais. (Foto: Reprodução/Repórter Popular)

A luta de indígenas e pescadores de Maricá, apoiada por estudantes, professores e moradores, conquistou em 16 de setembro a suspensão provisória das obras do Maraey, megaempreendimento turístico-residencial vinculado ao imperialismo espanhol. Reuniões comunitárias, manifestações e bloqueios marcaram a resistência à transformação do território em um grande condomínio de luxo.

Quase um mês depois da conquista, a mobilização prossegue. “Nossa luta tem que continuar. Nossa restinga continua ameaçada”, afirmou o Movimento SOS Restinga Maricá em 12 de outubro de 2026, ao voltar a denunciar o fechamento de uma via de acesso à lagoa pela Prefeitura e pelo empreendimento.

O alvo dos protestos é um projeto bilionário de R$ 11 bilhões, anunciado para uma área de cerca de 844 hectares na Área de Proteção Ambiental (APA) de Maricá, entre a lagoa e o mar. Controlado pelos grupos espanhóis Cetya e Abacus, o Maraey prevê três hotéis da rede ianque Marriott International, residências de alto luxo, campo de golfe e centro equestre. No território vivem a comunidade pesqueira de Zacarias e as aldeias guarani Mata Verde Bonita e Morada dos Pássaros.

A resistência atravessa gerações. Em 2008, AND já denunciava a ofensiva de um consórcio transnacional com participação da Cetya contra os pescadores de Zacarias, numa disputa pelo território que permanece em curso.

Enquanto as comunidades defendem a permanência na terra e o acesso às águas de onde tiram seu sustento, o governo municipal anunciou financiamento para a infraestrutura do negócio estrangeiro. Segundo a Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), a parceria prevê R$ 360 milhões, com recursos do fundo soberano municipal, gestão da empresa pública Maricá Global Invest (MGI) e juros de 6% ao ano. O acordo inclui a implantação de vias e outras estruturas vinculadas ao empreendimento.

A luta continua depois da suspensão das obras

Em 16 de setembro, a “Justiça” do Rio de Janeiro determinou a suspensão provisória das obras do Maraey na Restinga de Maricá. A liminar, concedida pela desembargadora Renata Maria Nicolau Cabo, da 1ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça, a pedido do Ministério Público estadual (MPRJ), suspendeu os efeitos das licenças ambientais e as intervenções na Fazenda de São Bento da Lagoa, além de impedir novas autorizações para obras e parcelamentos do solo. Foi fixada multa diária de R$ 100 mil, limitada a R$ 10 milhões. A decisão vale até o julgamento do recurso ou a produção da prova técnica determinada no processo. A empresa anunciou que recorreria.

A suspensão, entretanto, não encerrou a luta. Em 12 de outubro, o Movimento SOS Restinga Maricá cobrou providências do Judiciário e do MPRJ contra o que denunciou como fechamento ilegal da rua pelo “pacto Maraey/Prefeitura de Maricá”. “A destruição que já aconteceu foi devastadora. E isso é só o início do que eles prometem”, afirmou. A denúncia se refere à interdição de trechos da Via Beira-Lagoa, iniciada em setembro e apresentada pela empresa e pelo município como alteração temporária de trânsito durante as obras.

No mesmo dia, a Associação Comunitária de Cultura e Lazer dos Pescadores de Zacarias (ACCLAPEZ), conhecida como “Os Irredutíveis”, divulgou um depoimento de sua presidente, Ni Marins, em defesa da comunidade onde vive há mais de cinco décadas. “Estou lá desde os meus 16 anos, já estou completando 70 anos, e tô brigando até hoje pelo meu povo, para que a gente tenha uma vida melhor, mas tá muito difícil, porque sempre tem essa briga”, declarou.

A pescadora denunciou a ofensiva dos interesses espanhóis contra o território e as condições de vida da comunidade: “Esses espanhóis vieram pra acabar com o resto de sossego que nós temos”. Ao tratar da sucessão de nomes vinculados ao empreendimento, afirmou: “E agora é Maraey, eles só mudam de nome, mas eles vieram pra acabar com tudo, acabar com o nosso sossego, acabar com a nossa restinga, e é isso que a gente não quer”.

“A gente precisa da restinga, a gente precisa da lagoa”, afirmou Ni Marins, que questionou as consequências das construções para as águas e o saneamento da região: “Aonde que eles vão jogar tanto esgoto, de onde que eles vão tirar tanta água, pra tanta coisa que eles vão construir?”.

A presidente também denunciou a ameaça aos espaços comunitários: “Aonde eu trabalho, que é na associação, tem um campo de futebol, e eles querem destruir o campo de futebol pra fazer prédios…”. Segundo ela, a proteção da sede não impede a ameaça às áreas ao redor: “A nossa associação está tombada, então eles não podem mexer, mas o entorno da associação eles vão tirar tudo, e é isso que nós estamos brigando pra não acontecer”.

A ACCLAPEZ combate o Maraey e reivindica a titulação coletiva do território dos pescadores. Sua posição difere da Associação de Moradores e Pescadores de Zacarias (AMORPEZ), presidida por Washington da Costa, que apoia o empreendimento e recebeu uma reunião da Prefeitura com a empresa em setembro.

A solidariedade às aldeias também prosseguiu em outubro. No dia 8, o Movimento Baía Viva divulgou a continuidade da campanha de doação de alimentos, roupas e lonas para a Aldeia Guarani Mbyá Guyra Amba, a Morada dos Pássaros, com apoio de setores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e de coletivos. A aldeia enfrenta falta de energia elétrica, acesso limitado à água potável e moradias precárias.

Em setembro, a articulação ampliou a divulgação da luta para além do município. No dia 25, o deputado estadual Flávio Serafini publicou uma visita à associação de pescadores em Zacarias, na qual denunciou a ameaça do empreendimento espanhol ao território tradicional e o apoio da Prefeitura ao projeto. No dia 23, o SOS Restinga havia divulgado uma convocação para um colóquio na UFF em defesa da restinga.

Na véspera, em 22 de setembro, o movimento e a ACCLAPEZ abriram uma campanha de arrecadação para organizar um encontro em Zacarias, com debate e almoço comunitário. O chamado propunha reunir moradores e a população de Maricá para compartilhar informações sobre a suspensão das obras e fortalecer a organização. A plataforma defendida na campanha inclui proteção integral da restinga, permanência das comunidades, acesso livre às praias e lagoas e usucapião coletivo para Zacarias.

No dia 21, a defesa da restinga chegou à Marcha pelo Clima, no Rio de Janeiro. Em registro divulgado por Bárbara Sinedino, ativistas do SOS Restinga denunciaram o uso de recursos públicos para favorecer a especulação imobiliária e a construção do resort. A participação deu sequência à convocação divulgada dois dias antes, que saudava a paralisação das obras como uma conquista da mobilização popular.

Em Zacarias, em 20 de setembro, uma faixa explicitou a reivindicação territorial: “Regularização fundiária bem feita só com usucapião coletivo!”. A proposta busca proteger a permanência da comunidade diante da oferta de títulos individuais pelo empreendimento. No dia anterior, uma convocação para reunião e panfletagem na sede da ACCLAPEZ também chamava os participantes a levar enxadas e mudas da restinga.

Em 8 de setembro, o SOS Restinga divulgou uma moção aprovada por unanimidade no Conselho Universitário da UFF, com repúdio ao Maraey, exigência de suspensão das obras e apoio à regularização coletiva de Zacarias. Também houve manifestações de apoio do Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Faculdade de Formação de Professores da UERJ.

No depoimento de 12 de outubro, Ni Marins reafirmou a disposição de prosseguir a resistência: “Enquanto eu tiver força, vou brigar pelo meu povo, vou correr atrás pra que eles não consigam construir nada naquela área”.

Barricada no canteiro e ameaças de repressão

A reação municipal aos protestos já havia levado o movimento a publicar, em 27 de agosto, uma carta aberta à população: “Não somos traficantes! Não somos vagabundos! Não somos bandidos, Prefeito Washington Quaquá!”. O documento denunciava que o prefeito criminalizava os manifestantes e explicava o uso de máscaras pelo temor de represálias da administração municipal. Pesquisadores, biólogos, professores e pescadores estavam entre os integrantes do coletivo.

No dia 26, o núcleo de Maricá do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (SEPE) e o Coletivo de Educadores Municipais haviam divulgado uma nota de solidariedade aos manifestantes. As entidades repudiaram as tentativas de difamação, criticaram o financiamento público do empreendimento privado e defenderam a preservação integral da restinga, a titulação coletiva de Zacarias e o acesso gratuito às praias.

Também no dia 26, o movimento respondeu às ameaças: “Não há autoritarismo, não há força política e não há ninguém capaz de deter os nossos ideais”. A declaração acompanhava um vídeo com a chamada “Restinga sitiada”, que registrava o fechamento da via de acesso ao empreendimento. O movimento recebeu ainda declarações públicas de apoio dos deputados Glauber Braga e Professor Josemar, do PSOL.

O confronto que desencadeou essa reação ocorreu na manhã de 24 de agosto. Indígenas, pescadores tradicionais, universitários e ativistas fecharam a RJ-110, na Avenida Prefeito Alcebíades Mendes, em São José do Imbassaí, e ergueram uma barricada na ponte de acesso ao canteiro do Maraey.

O registro divulgado pelo Coletivo Indígena Zarabatana e reproduzido pela Federação Anarquista descreveu o bloqueio organizado pela comunidade. Houve queima de pneus na barricada. Ao responder a questionamentos sobre a ação, o SOS Restinga afirmou que ela ocorreu sobre o concreto, fora da área de vegetação, e a apresentou como um recurso para enfrentar o avanço da destruição.

No mesmo dia, Washington Quaquá (PT) saiu em defesa do empreendimento e ameaçou os manifestantes em publicação no Instagram: “Quem tenta parar a cidade no grito e na confusão vai encontrar a força do estado”. O prefeito classificou o protesto como “arruaça”, alegou prejuízos ao transporte, à saúde e às aulas e anunciou que convocaria uma manifestação favorável ao Maraey.

Reuniões comunitárias e resistência à expulsão

Antes da barricada, a organização já se apoiava em reuniões na sede da ACCLAPEZ e na divulgação das intervenções na restinga. Em 16 de agosto, a associação afirmou em suas redes: “O povo tá lembrando da força que tem! Somos o tostão contra o milhão! Resistiremos!!!”. Dois dias antes, havia denunciado imagens de remoção de árvores e drenagem de brejos, questionando a ausência de estruturas e equipes para resgatar fauna e flora antes da passagem das máquinas.

Em 8 de agosto, uma reunião em Zacarias havia sido convocada para discutir os processos judiciais e as próximas ações, com café da manhã comunitário. A organização territorial acompanha a defesa de uma comunidade cuja presença na região remonta ao século XVIII e aparece em um mapa de 1797.

Em depoimento publicado pela Agência Brasil em 21 de julho, Ni Marins explicou por que a ACCLAPEZ rejeita a regularização individual proposta pela empresa. A presidente advertiu que a pressão para vender os terrenos poderia retirar os pescadores da área: “A gente quer um título coletivo que passe de pai para filho e que não possa ser vendido”.

No dia 1º de julho, moradores e apoiadores haviam realizado um ato diante do Fórum de Maricá durante a audiência da ação sobre o empreendimento. A convocação exigia a defesa do território contra o resort espanhol e chamava a população a levar cartazes e participar. Depois da audiência, o movimento reafirmou que continuaria a acompanhar o processo e a defender a restinga, as aldeias e a comunidade pesqueira.

Uma resistência que atravessa gerações

Em 27 de abril de 2023, o SOS Restinga divulgou um chamado no Instagram para um ato no dia seguinte, na Praça Orlando de Barros, no centro de Maricá. A convocação denunciava o empreendimento do imperialismo espanhol, exigia “Parem as máquinas!” e chamava a assinar o abaixo-assinado em defesa da restinga e de Zacarias. Entre os apoiadores estavam o Instituto Nhandereko, o Movimento Baía Viva, a Teia dos Povos, a Associação de Preservação Ambiental das Lagunas de Maricá (APALMA) e o Movimento Nacional de Luta pela Moradia.

Dez dias antes, em 17 de abril, indígenas da Aldeia Mata Verde Bonita haviam ido ao canteiro exigir a interrupção das obras. Na manifestação registrada por A Tribuna, o cacique Tupã entrou na área do empreendimento, cobrou representantes da IDB Brasil e denunciou o impedimento de coletar sementes e mel no território. O protesto reuniu mulheres, jovens e crianças. O cacique anunciou a disposição de instalar ocas no local caso a empresa continuasse as intervenções.

“Não vou deixar minha cultura ser pisoteada assim”, declarou Tupã. A afirmação se somava à exigência que o pescador Vilson Francisco Correia, diretor da ACCLAPEZ, já havia feito em vídeo divulgado em 29 de janeiro daquele ano: “A gente quer a nossa liberdade”. Na legenda, o chamado nomeava o alvo da resistência: “Fora IDB do território de Zacarias!”.

Na reportagem de 9 de setembro de 2008, Grilagem transnacional avança na Restinga de Maricá, AND denunciou o consórcio Madri-Lisboa, que promovia um resort estimado em R$ 8 bilhões. A Cetya estava entre os grupos associados. Naquela época, arame farpado e uma cancela restringiam o acesso ao território.

A ACCLAPEZ, então presidida por Vilson Corrêa, organizou a resistência com o Conselho Comunitário de Maricá, sindicatos, professores e entidades populares. O Movimento Pró-Restinga reuniu estudos para contestar o plano de manejo e lotou uma reunião pública em 2007, impedindo naquele momento a aprovação da proposta apresentada pela Comissão Estadual de Controle Ambiental.

A criação da APA, em 1984, já havia ocorrido após ameaças à comunidade. Antes disso, a terraplenagem do projeto Cidade de São Bento, iniciada em 1975, provocara anos de mortandade de peixes. Em 1978, a 5ª Vara Federal determinou a paralisação das obras.

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