A maloca Casa do Saber, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira (AM), foi palco do lançamento da sétima edição da revista de pesquisa intercultural da Bacia do Rio Negro, Aru. Dedicada às mulheres indígenas da região e com caráter binacional, a edição reúne 21 textos de autoras indígenas e não indígenas do Brasil e da Colômbia, propondo uma reflexão ampla sobre o ser mulher na bacia do Rio Negro.
Realizado nesta segunda-feira (27/04), o evento reuniu lideranças indígenas, estudantes e autoras em uma tarde marcada pela celebração, memória e reconhecimento da trajetória das mulheres rionegrinas, evidenciando o papel das mais velhas como precursoras do movimento indígena feminino na região – muitas vezes silenciadas ao longo da história.
Inspirada nas sociocosmologias indígenas da região, a publicação parte da ideia da mulher como agente de transformação, associada ao movimento, à renovação e à capacidade de recriar mundos. A edição articula gênero, território e identidade a partir de perspectivas interseccionais, reafirmando que as experiências das mulheres indígenas estão em constante transformação e só podem ser compreendidas em relação a dimensões sociais, culturais e políticas mais amplas.
Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA) e uma das editoras desta edição, explica que o processo de construção da publicação partiu das próprias experiências das mulheres da região.
“No processo de organizar os textos, partimos dos múltiplos temas trabalhados e discutidos pelas mulheres indígenas do Rio Negro e também de quem caminha junto com elas, no intuito de ampliar os conhecimentos que circulam nas comunidades para um público maior, seguindo com o propósito da Aru”, afirmou.

Neste contexto, a assessora chama atenção, ainda, para o simbolismo da capa desta edição, ilustrada por Larissa Duarte, do povo Tukano. Produzida com tinta de urucum e técnica de aquarela, a arte traz a imagem da cobra-canoa, elemento central nas narrativas de origem da região.
A ilustração destaca que a travessia não é feita apenas por homens, mas também por mulheres, muitas vezes invisibilizadas nessas histórias. Representadas no interior da cobra-canoa, elas simbolizam a trajetória de formação da humanidade, ao longo da qual os povos foram aprendendo a benzer, caçar e curar, recebendo os conhecimentos que seguem vivos até hoje.
Organizada em seis eixos temáticos, a revista aborda desde participação política e economia indígena até saúde, violência contra mulheres, saberes tradicionais e mudanças climáticas, incluindo reflexões no contexto da COP30.
Memórias que sustentam
Durante o lançamento, cinco autoras compartilharam com o público os processos de escrita e as experiências que deram origem aos seus textos: Elizabete Moraes, Tukano, advogada e multiartista; dona Cecília Albuquerque, Piratapuia, liderança histórica e ex-coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn) da Foirn; Cleocimara Reis, Piratapuia, atual coordenadora; Rosijane Moura Tukano, doutoranda; e Carla Lins Yanomami, presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), de Maturacá.
No início do evento, Dulce resgatou o significado de Aru nas narrativas de conhecedores de diferentes povos do Rio Negro: um personagem que avança de leste para oeste, remando rio acima, trazendo consigo o frio e o chuvisco que fertilizam as roças recém-plantadas com ideias e reflexões para fortalecimento das vozes indígenas na região.
Abrindo os diálogos da mesa de autoras, Cleocimara Reis ressaltou os avanços construídos ao longo dos anos pelo Departamento de Mulheres, especialmente no enfrentamento à violência de gênero e na ampliação da participação feminina nos espaços de decisão.
Segundo ela, as conquistas atuais são fruto de uma trajetória coletiva de luta e resistência. “Somos o sonho das mulheres que vieram antes da gente. Ocupamos todos os espaços que também são nossos”.
As falas evidenciaram que escrever para a revista, para muitas delas, foi também um exercício de memória, resistência e continuidade. Rosijane Moura destacou que seu texto nasce das histórias de outras mulheres que a formaram ao longo da vida.
“Hoje, eu sou formada por várias mulheres indígenas que eu tive a oportunidade de conhecer”, afirmou ela ao lembrar trajetórias marcadas por dificuldades, violência e também por saberes e ensinamentos transmitidos entre gerações.“Se hoje eu estou aqui, é graças a essas mulheres que enfrentaram, que sofreram, muitas vezes em silêncio”, completou durante a fala.
Já dona Cecília Albuquerque relembrou os primeiros anos de atuação do Dmirn, marcados por desafios e ausência de recursos. “Nós éramos as primeiras a enfrentar vários desafios, onde não tínhamos nada. Até bote e motor a gente tinha que carregar. Mas, com muito sacrifício, fizemos nosso trabalho”, contou.
Ela destacou ainda que uma das principais lutas foi pelo reconhecimento dos direitos das mulheres indígenas e pelo direito à fala: “Nós temos os mesmos direitos. Podemos não ter a mesma força, mas a nossa fala, a nossa inteligência é a mesma”.
A fala de Carlinha Yanomami trouxe o processo de criação da associação Kumirayoma, formada por mulheres Yanomami que buscavam conquistar espaço de participação. “A gente não tinha esse espaço. As reuniões eram decididas pelos homens e nós apenas ouvíamos”, relatou.


A partir da organização coletiva, ela contou, foi possível avançar em pautas fundamentais, como o enfrentamento à violência. “Hoje as mulheres estão conseguindo perceber o que é violência e falar sobre isso nas comunidades”.
Para Carlinha, o trabalho também envolve fortalecer as novas gerações e manter vivas as práticas culturais. “A cestaria não é apenas cestaria, ela é ancestralidade. Não podemos perder isso com a juventude”, finalizou.
A multiartista Elizabete Moraes destaca a escrita como forma de expressão sensível e política do feminino, conectada à memória, à espiritualidade e à relação com a natureza. “O feminino está em tudo, em todos os lugares”, afirmou.
Sua fala também reforçou a importância da imaginação e da escuta interna como caminhos de criação e afirmação identitária, especialmente para crianças e adolescentes presentes no evento.
Após a mesa de falas, o público participou com perguntas e comentários, em um momento de troca entre gerações. Em seguida, Janete Alves, do povo Desana, vice-diretora da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e ex-coordenadora do Departamento de Mulheres, ressaltou a importância da publicação como reconhecimento do trabalho e das pesquisas realizadas pelas mulheres indígenas, além de seu papel no fortalecimento do trabalho intercultural no Rio Negro.
O encontro foi encerrado com um café coletivo, mantendo o clima de acolhimento e celebração que marcou toda a tarde.
Esta publicação e evento de lançamento foram realizados pelo ISA, em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), Aliança Pelo Clima (ApC) e TerrIndígena.






